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Entrevista com a mãe de São Carlo Acutis (na íntegra)
Entrevistador: Como foi o dia em que conheceram Rajesh?
Antonia: Rajesh é uma figura de um jovem que veio trabalhar como colaborador doméstico em nossa casa. Podemos dizer que é um dos primeiros convertidos graças a Carlo, no sentido de que ele era de casta sacerdotal Brâmanes, era hindu. E o exemplo de Carlo o tocou tanto que ele quis receber o batismo e a Eucaristia. Então, Carlo foi um evangelizador para ele.
Naturalmente, Carlo sobretudo evangelizava com o exemplo e o testemunho. Mas ele era um grande pregador. Carlo sabia falar muito bem, então claramente explicava bem as coisas. Ele se interessava por Nossa Senhora, Lourdes e certamente também pelas histórias dos santos. Mas, sobretudo, Rajesh estava aberto a acolher essa graça, e por isso foi um dos primeiros frutos. Depois houve outras pessoas, porque certamente, como quando Jesus estava na Terra, há quem ouve e quem não ouve; não é que todos se convertem. Entre aqueles que seguiam Jesus, alguns quiseram até matá-Lo. Nem todos reconheciam as graças que Ele fazia.
Carlo também tinha uma força enorme na oração e obteve muitas graças através dela. Uma vez fez uma novena 26 vezes e depois obteve a graça que havia pedido. Era muito constante e tinha fé e confiança em Nossa Senhora e em Jesus. Sabia que não falava ao vento, falava a essas Pessoas. E tinha essa confiança filial, que é o que Jesus pede quando diz: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, podereis mover montanhas.” Assim, Carlo obteve conversões, curas, e certamente Rajesh faz parte desse universo. Ele ainda trabalha conosco, é uma pessoa que também testemunha muitas experiências e certamente é um dos primeiros frutos de Carlo.
Entrevistador: Como estava Carlo no hospital? Há um momento em particular que deseja compartilhar?
Antonia: A doença do Carlo durou cinco ou seis dias, não mais que isso. Agora não lembro bem, mas me recordo que o Carlo voltou da escola em um sábado. Ele tinha acabado de dar duas voltas correndo no campo de futebol. Voltou e estava com uma pequena manchinha vermelha no olho. Pensava que, de qualquer forma, faz bem praticar um pouco de esporte. “Mens sana in corpore sano” (mente sã, corpo são) dizia São Bento, não? Então, também um pouco de esporte faz bem, contanto que não se torne idolatria. Porque se virar um ídolo, então o esporte não faz bem ao corpo. Carlo dizia que os homens se preocupam muito com a beleza do corpo e pouco com a beleza da alma. Essa é uma sociedade um pouco efêmera, hedonista, que tende a se concentrar muito na beleza física, mas pouco na beleza interior. Acabam esquecendo que, mais cedo ou mais tarde, todos morreremos. Não somos imortais. Carlo dizia que “a cada minuto que passa temos um minuto a menos para nos santificar; o tempo deve ser maximizado para a eternidade.”
E, sobretudo, devemos viver nessa perspectiva do infinito, pensando que somos peregrinos do absoluto, mas não permanentes nesta Terra. A morte de Carlo chegou de forma súbita. Ele havia voltado de uma excursão escolar em um sábado. No domingo, fomos em uma excursão próxima a Milão, no seminário maior de Venegono. Voltamos para casa e Carlo teve febre e dor de garganta. Como metade da classe estava gripada, chamei o médico, que veio duas vezes. Parecia apenas uma tonsilite banal. Mas, na verdade, se escondia uma leucemia.
Nessa situação, Carlo disse: “Ofereço meus sofrimentos ao Papa, à Igreja, para não ir ao purgatório e ir direto ao Paraíso.” Achei um pouco estranho. Meu marido também ouviu, assim como Rajesh, e pensamos que ele estava brincando. Ele era um pouco hipocondríaco, filho único, então eu tinha medo. Até que uma manhã ele acordou com astenia, ou seja, não conseguia se mexer. Liguei para o pediatra antigo, que o conhecia (porque ele [Carlo] já era grande) e perguntei: “Mas que estranho, ele não consegue se mover. Não entendemos.” E ele disse: “Leve-o imediatamente”, porque tinha sido chefe de serviço no hospital De Marchi, em Milão, especializado em doenças infantis.
Quando chegamos, Carlo me disse: “Mãe, daqui não sairei vivo.” Ele já sentia isso. E então logo nos deram a terrível notícia. Lembro que, meses antes, ele havia se filmado dizendo: “Quando pesar 70 quilos, estou destinado a morrer.” E ele pesava 70 quilos quando morreu. Esse vídeo está em um documentário do Vaticano. Ele parecia inspirado.
Quando era pequeno, sempre dizia a Rajesh: “Morrerei porque uma veia se romperá no cérebro.” Eu perguntava: “Carlo, como você sabe como vai morrer?” E, de fato, morreu de hemorragia cerebral causada pela leucemia. Ele previu a causa da própria morte.
E, sobretudo, brincava com Rajesh. Fez um desenho e escreveu “Caro Jesus, te peço: faz com que Rajesh seja menos vaidoso”, porque Carlo já havia entendido que a vaidade pela beleza é um defeito espiritual. Então ele percebeu que havia um problema com Rajesh, porque ele era um belo rapaz – parecia com Sharon Khanna, aquele ator de Bollywood. Se preocupava muito com os cabelos, não tinha um fio de cabelo branco, era muito particular.
Carlo brincava com Rajesh, dizia: “Vê, você envelhecerá e eu permanecerei jovem.” Nós não entendíamos o que ele queria dizer. De fato, Carlo permanecerá sempre jovem, porque morreu aos 15 anos. Continuará sendo aquele que era aos 15, então às vezes parecia que ele antecipava as coisas. O Senhor o inspirava.
Quando estava no hospital, lembro que os médicos perguntavam se ele sofria, porque a dor era forte. Não conseguia se mexer pelos líquidos que tinha, porque a leucemia fulminante, que hoje em dia se trata, na época era uma sentença de morte, era devastadora. E Carlo respondia: “Há pessoas – e falava sorrindo – que sofrem muito mais do que eu”. Nunca se lamentava porque não queria incomodar. Se preocupava até com as enfermeiras, que eram frágeis e precisavam levantá-lo, já que ele tinha 1,82 metros e pesava 70 quilos. Sempre pensava nos outros.
Ele me disse: “Mãe, não se preocupe, porque te darei muitos sinais.” Depois me fez entender que ele não morreria. Eu tinha esperança até o fim de que o Senhor o faria viver, mas ele tinha plena consciência de que morreria. Depois que ele morreu, sonhei com ele, e ele me disse: “Mãe, me beatificarão e depois me canonizarão.” Ele também me anunciou o nascimento dos meus dois filhos, porque quatro anos depois que ele morreu eu tinha 39 anos. Carlo era filho único quando morreu e me disse: “Não se preocupe, ainda será mãe.” De fato, depois tive gêmeos.
Lembro também que sonhei com Jacinta (de Fátima), e sou devota dos pastorinhos. Ela me disse: “Não se pode lamentar, porque Carlo será como eu, só que eu sofri muito mais do que seu filho.” De fato, ela passou meses no hospital sofrendo pelos pecadores. Nossa Senhora havia perguntado se ela queria oferecer ainda sofrimentos, e ela disse sim. Morreu sozinha. Já a doença de Carlo durou apenas cinco dias. Vi nisso sinais claros.
Desde que Carlo morreu, o primeiro milagre aconteceu no dia do funeral: uma senhora com câncer rezou a ele e o câncer desapareceu completamente. Outra senhora, de 44 anos, não podia ter filhos, rezou a ele e ficou grávida um mês depois. As pessoas espontaneamente começaram a rezar para ele, porque Carlo já tinha fama de santidade. Era um garoto especial, ia à missa todos os dias, rezava, ensinava catecismo, e todos o amavam pela bondade e generosidade. Mesmo colegas distantes da fé o amavam, porque quando alguém tem o coração puro, os outros reconhecem.
Este foi um dos momentos mais importantes: ele disse que morreria sereno, porque viveu toda a vida sem desperdiçar tempo com coisas que não agradam a Deus. Estava consciente de estar em graça, sempre querendo fazer a vontade de Deus. Se confessava toda semana, todas as noites fazia exame de consciência, e dizia que nossa alma é como um balão de ar quente que precisa do fogo para subir ao céu. O fogo é a confissão que se acende e o balão às vezes para no céu. E por quê? Talvez o vento esteja parado e não o faça voar. Então, ele dizia que devemos jogar fora os sacos de terra, nossos pecados veniais, que precisam ser eliminados. Assim, o balão sobe novamente com nossa alma; caso contrário, permaneceremos na mediocridade. E isso é um problema, porque o Senhor nos chama a grandes coisas. Todos somos especiais, mas precisamos realizar isso, depende da nossa livre vontade.
Entrevistador: Como você viveu a perda do Carlo?
Antonia: Eu vivi cristãmente, porque já havia iniciado um caminho de conversão em 1994. Eu via as coisas na perspectiva da justiça: “O Senhor me pede esse sacrifício.” No hospital, me vinham à mente as palavras do livro de Jó: “O Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor.” Sempre devemos aceitar a vontade de Deus, porque Ele só quer o bem para nós. A morte é a passagem para a vida verdadeira. Se o Senhor chamou Carlo, será uma razão de alegria. No meu caso isso se manifestou com a canonização. Mas também encontro muitos pais que perderam filhos prematuramente e não entendem. Devem confiar em Deus; a morte não é o fim, é o início da vida verdadeira. É maravilhoso! Muitas vezes, quando são jovens, Ele os leva já amadurecidos, poupando-os das dificuldades da vida e conduzindo-os diretamente ao céu.
Para quem fica, é um purgatório que, se for vivido bem e oferecido a Deus, torna-se motivo não só de expiação, mas também de ajuda para muitas outras almas. Nossa Senhora disse em Fátima que muitas almas vão ao inferno porque não há quem reze ou se sacrifique por elas. Nossa vida, como dizia São Paulo, completa o que falta à Paixão de Cristo. Se oferecida, pode ajudar muitas outras pessoas. O bem pode ser feito materialmente, mas também espiritualmente, rezando e sacrificando-se pelos pecadores, como Nossa Senhora pediu. Carlo sempre fez isso: além das obras materiais, rezava muito pelos outros.
Entrevistador: Como foi o momento em que encontraram o corpo de Carlo incorrupto? Como foi vê-lo pela primeira vez?
Antonia: Eu não usaria o termo “incorrupto”, mas “intacto”. Na exumação do corpo, ele estava intacto. Os órgãos precisaram ser tratados, mas alguns permaneceram intactos, como o coração. Normalmente, os órgãos se decompõem primeiro, mas depois de alguns meses a decomposição chega. Foi um pequeno sinal de Deus: Carlo pôde ser exposto com suas roupas, até os sapatos, porque estava intacto. Naturalmente, incorrupto só Nossa Senhora e Jesus, porque a pele sofre, se deteriora. Mas ele estava intacto, e isso impressiona os jovens, que veem alguém da idade deles. É um belo sinal que o Senhor deu. Mas há muitos santos maravilhosos que não permanecem intactos; isso não significa que não fossem santos. Pequenos sinais nos fortalecem na fé.
Entrevistador: É verdade que Carlo foi a porta de conversão para toda a família?
Antonia: Concluo falando da lembrança do batismo. Estávamos em Londres quando Carlo nasceu, em 3 de maio de 1991. Fato curioso: a clínica onde dei à luz publicava os nascimentos no jornal The Times, de Londres, e o bebê Carlo apareceu nos jornais. Parecia quase um destino ter que sair sempre em todos os jornais. Poucos dias depois, em 18 de maio, foi batizado. O dia 18 de maio é importante, porque é aniversário de João Paulo II. Carlo tinha sangue polonês, e a Beata que o batizou também era polonesa, nascida também nesse dia. Sempre vejo nisso uma união com João Paulo II, que se preocupava muito com os jovens. Carlo teve um pouco a missão de ajudá-lo, porque ele fez muito por eles. Todos os dias recebemos notícias de milagres e conversões. Milagres contínuos. O Senhor usa Carlo para conceder graças. Carlo é um instrumento. Mas, sobretudo, sua missão é mostrar a importância dos sacramentos.
Os sacramentos são sinais eficazes escolhidos pela Santíssima Trindade para nos dar graça e santificar-nos. Do lado ferido de Jesus saiu sangue e água. Ali nasce a Igreja e os sacramentos, que são a misericórdia de Deus para nós. Através deles nos santificamos. Vemos a confissão e a misericórdia, podemos sempre recomeçar apesar de nossas fragilidades. Os sacramentos são o mais sobrenatural da Terra, porque nos permitem alcançar o Céu, fazer o caminho de santificação.
Carlo nos ensina a focar no essencial, como dizia o Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos; só se vê com o coração.” Muitos não vão à missa porque se escandalizam com padres ou pessoas, mas isso é errado, porque não se confia em Deus, na promessa de que através dos sacramentos chega a salvação.
Devemos rezar por vocações, porque sem sacerdotes não há Eucaristia. Deus decidiu que fossem os sacerdotes ordenados. Então, temos que rezar pelas vocações. Devemo, se possível, lembrar também da amostra que Carlo fez com tanto esforço, trabalhando à noite e no verão, porque via a falta de consciência sobre a importância da Eucaristia. A missão principal de Carlo é nos lembrar de colocar os sacramentos, a Igreja, a oração, o rosário, o que é essencial para a salvação.
Carlo criou um “kit de santidade”, que ele resume assim: fazer obras de caridade, ler a Palavra de Deus, rezar ao anjo da guarda, ir à missa todos os dias, adoração eucarística, rezar o rosário diariamente, confissão semanal se possível. Até os pecados veniais devem ser confessados, senão voltamos sempre para baixo. Mas somos chamados a grandes coisas.
Cada um é especial, único, irrepetível. Temos impressões digitais diferentes, cada um é único. Carlo é santo, mas todos devem ser santos como ele. Esta é a vocação cristã: a santidade. Todos originais, nunca uma cópia.
fonte: https://bibliotecacatolica.com.br/blog/carlo-acutis/entrevista-mae-sao-carlo-acutis/?srsltid=AfmBOorH2YDVqEMiabm8VozejFQAgf17bqVJGTgQ5FTouBtP6JcKEWd3
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Infância e adolescência
Carlo Acutis nasceu em 3 de maio de 1991, em Londres, porque seus pais estavam lá a trabalho. Ele também foi batizado nesta mesma cidade, no dia 18 de maio, mas logo a família voltou para sua cidade de origem, Milão, na Itália, onde Carlo cresceu. Seus pais, Andrea e Antonia, viviam muito bem economicamente e, apesar de se considerarem católicos, não praticavam a religião — não tinham uma vida católica.
Desse modo, a vida espiritual de Carlo ganhou impulso significativo por influência de sua babá polonesa, de nome Beata, que era profundamente devota. Ela lhe ensinou as primeiras orações e o introduziu à fé católica de modo que, com cerca de 4 anos de idade, Carlo passou a demonstrar grande interesse pelas coisas de Deus.
O menino fazia muitas perguntas à sua mãe, que passou a estudar sobre a fé católica para responder às dúvidas do filho. E, com isso, ela voltou à prática da religião. Carlo frequentava a missa diariamente, participava da Adoração Eucarística e rezava o Rosário. Além disso, ele realizava serviços aos pobres, e apesar de ter nascido em uma família rica, era bastante desapegado de seus bens, sempre pensando naqueles que pouco tinham.
Em casa, pedia para colocar a sobra de comida em recipientes, para então levá-la aos desabrigados locais. “[…] costumava ir com os pais pelas ruas de Milão, para distribuir cobertores e refeições quentes aos desabrigados”. Dava a justa medida ao dinheiro e se zangava quando queriam comprar-lhe um segundo par de sapatos.[…] “ele tinha o hábito de juntar as ajudas semanais que lhe eram dadas pela família, para entregá-las aos necessitados da Obra de São Francisco em Milão”. 1
Além disso, Carlo Acutis tinha uma compreensão espiritual impressionante para sua idade e falava a todos com naturalidade sobre sua amizade com Jesus. Inclusive, pessoas que trabalhavam na casa da sua família se converteram à fé católica por ouvi-lo falar da Eucaristia. Tamanho era seu amor pelo Corpo de Cristo que, com 7 anos de idade, manifestou a vontade de receber a Santa Comunhão. E, de tanto insistir, seus pais o apresentaram ao bispo que, ao conhecê-lo, permitiu que assim acontecesse, pois percebeu que aos 7 anos o menino já tinha uma fé madura o suficiente para receber Jesus na Eucaristia.
As principais devoções de Carlo Acutis
Os dois grandes pilares da vida espiritual de Carlo eram a Eucaristia e Nossa Senhora, tinha particular devoção ao Rosário. Desse modo, ele chamava a Eucaristia de “a minha estrada para o céu” e se confessava regularmente para manter-se em estado de graça. Carlo entendia, de fato, o poder transformador da Eucaristia e dedicava seu tempo para participar da adoração eucarística sempre que possível.
O Rosário, para Carlo, era uma poderosa arma espiritual. Ele era consagrado a Nossa Senhora e acreditava firmemente no valor da intercessão da Virgem Maria. Além disso, incentivava todos ao seu redor rezarem o Rosário. Sua prática de fé era simples e profunda, inspirando a todos que tinham a sorte de conhecê-lo.
Apóstolo na internet
Outra questão muito presente na vida de Carlo Acutis foi a internet. Ele tinha uma paixão pela tecnologia e, ainda muito jovem, percebeu o potencial da internet como uma ferramenta para evangelização. Assim, passou a utilizá-la para realizar um lindo apostolado, manifestando ainda mais o seu amor pela Eucaristia e por Nossa Senhora.
Desse modo, aos 11 anos, ele começou a criar um site dedicado a catalogar milagres eucarísticos ao redor do mundo. Sua pesquisa foi espantosamente extensa, ele dedicou muito esforço para colher materiais, inclusive pedia aos seus pais que o levassem a determinados lugares para obter conteúdos para sua pesquisa. E, assim, ele conseguia fotos, folhetos, informações — muitas coisas que ainda nem estavam disponíveis na internet na época. “Ele era um gênio – diz Gori – porque mesmo não tendo completado os estudos especializados, era capaz de criar programas de computador melhor que os acadêmicos e de usar as mídias sociais com o objetivo de evangelização e promoção humana”. 1
De fato, Carlo tinha um talento especial para tornar a fé mais acessível e cativante, usando a linguagem e os meios disponíveis a sua geração. Ele acreditava que a internet poderia ser um espaço para espalhar a fé. Sendo assim, fazia questão de apresentar, sobretudo aos jovens, a beleza da fé, com argumentos sólidos para convertê-los e levá-los a enxergar a verdade que ele já via. Carlo queria tornar conhecidos os milagres que apontavam para o sobrenatural presente na Eucaristia.
Além disso, ele fez outra pesquisa, dessa vez sobre as aparições de Nossa Senhora, a fim de torná-las ainda mais conhecidas através de seu site. Carlo tinha uma devoção especial a Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora de Lourdes. Ele lia muito sobre as aparições e sobre a vida dos santos, a ponto de deixar que aqueles trechos penetrassem o seu coração e transformasse a sua vida de modo que passou a oferecer os seus sofrimentos a Jesus e rezar muito mais, a fim de alcançar o céu.
A Eucaristia, o centro de sua jovem vida de 15 anos, seu serviço aos pobres junto à sua paixão pela web – tanto que muitos o consideram o santo padroeiro da internet – tornam a história do Beato cheia de “coisas do mundo”, mas com um horizonte claro, o da eternidade. 2
Padroeiro da internet
A Igreja tem Santa Clara como padroeira da televisão e, agora, séculos depois, Carlo Acutis é oficialmente declarado padroeiro da internet! Este título reflete sua paixão pela tecnologia e a sua habilidade em usá-la para o Bem maior. Ele é um modelo para todos os jovens que desejam usar suas habilidades e talentos para servir a Deus e à Igreja. Carlo provou que a santidade não está reservada aos mosteiros ou aos tempos antigos, mas pode florescer em meio à era digital. “Ele era um gênio – diz Gori – porque mesmo não tendo completado os estudos especializados, era capaz de criar programas de computador melhor que os acadêmicos e de usar as mídias sociais com o objetivo de evangelização e promoção humana”. 1
Seu legado continua vivo, inspirando jovens e adultos a buscar uma vida de fé autêntica e ativa. Carlo Acutis lembra-nos que cada um de nós tem a capacidade de evangelizar o mundo, começando pelos que estão ao nosso redor, através do amor a Deus e ao próximo. Seu exemplo é um convite apara abraçarmos a fé com alegria e criatividade, usando todos os recursos à nossa disposição para glorificar a Deus.
Sabia que a MBC produziu um documentário sobre Carlo Acutis?
Morte e processo de beatificação
Dois meses antes de sua morte, e quando ainda não havia descoberto a doença, Carlo gravou um pequeno vídeo dizendo “Estou destinado a morrer” e, de certa forma, despede-se. Parece mesmo que ele já sabia que logo iria morrer e, aos 15 anos, foi diagnosticado com leucemia. Além disso, seu tipo de câncer era o mais grave — restava-lhe apenas poucos dias de vida.
Mesmo enfrentando uma doença tão agressiva, ele não perdeu a fé nem o espírito alegre. Além disso, oferecia os seus sofrimentos a Deus e pensava mais nos outros que em si mesmo, demonstrando uma grande maturidade espiritual. Tão logo baixou o hospital, disse aos pais: “Ofereço os sofrimentos que deverei sofrer ao Senhor, pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao Purgatório e ir direto ao céu”. E diante dos sofrimentos, procurava minimizar. “Há pessoas que sofrem muito mais do que eu”, respondia às enfermeiras que lhe perguntavam como ele estava. E acrescentava: “não acorde a mãe que está cansada e se preocuparia mais”. 1
Ele faleceu em 12 de outubro de 2006, deixando um legado de santidade e exemplo para jovens do mundo inteiro. No dia do seu funeral, muitas pessoas compareceram — entre elas moradores de rua, que Carlos ajudava sem que ninguém soubesse — a ponto de deixar seus familiares admirados
O processo de beatificação de Carlo Acutis começou oficialmente em 15 de fevereiro de 2013, quando foi declarado Servo de Deus, o primeiro passo formal rumo à santidade. Esta etapa inicial reconheceu oficialmente suas virtudes heroicas e permitiu que a Igreja começasse a investigar sua vida e obras em profundidade. Em 5 de julho de 2018, o Papa Francisco declarou Carlo Venerável, reconhecendo suas virtudes heroicas e destacando sua vida como um exemplo extraordinário de santidade.
A beatificação de Carlo Acutis foi um marco significativo e aconteceu em 10 de outubro de 2020, na Basílica de São Francisco de Assis. Este evento reconheceu um milagre atribuído à sua intercessão: a cura milagrosa de um menino brasileiro, de Campo Grande (MS), que sofria de uma anomalia rara no pâncreas. A cerimônia de beatificação, presidida pelo cardeal Agostino Vallini, foi um momento de alegria e esperança para muitos, especialmente para os jovens, que viram em Carlo um modelo contemporâneo de santidade.
Confira aqui como é o processo para alguém se tornar santo.
Onde está o corpo de Carlo Acutis?
O corpo de Carlo Acutis foi enterrado em Assis, como ele queria — na terra de São Francisco de Assis. Embora não morasse em Assis, a família de Carlo possuía uma casa na cidade e, por isso, tinha o direito a um lugar no cemitério da cidade. Anos depois, em 23 de janeiro de 2019, seu corpo foi exumado e, em seguida, transladado para o Santuário da Espoliação, também em Assis, onde agora está exposto para veneração pública.
Conheça a oração de São Francisco de Assis.
Além disso, seu corpo, apesar de não estar incorrupto, encontra-se em um estado de conservação impressionante. Ele também está vestido com roupas simples: jeans e um par de tênis, refletindo sua vida cotidiana. Este traslado tornou Carlo ainda mais acessível aos fiéis que visitam Assis, proporcionando um local de peregrinação e oração.
Leia também Carlo Acutis e São Francisco de Assis: unidos pelo amor a Deus e à criação.
Carlos Acutis é reconhecido pelo Vaticano para a canonização
O reconhecimento de um santo é sempre um momento de grande alegria para a Igreja Católica. Eles são nossos modelos de virtude, além de intercessores poderosos, mostrando-nos como viver a fé de maneira autêntica e profunda. Especialmente emocionante é a canonização de jovens, demonstrando que a santidade é acessível a todas as idades e circunstâncias da vida.
Em 23 de maio, o Papa Francisco recebeu em audiência o prefeito do Dicastério das Causas dos Santos, Cardeal Marcello Semeraro, e autorizou a publicação de decretos que incluíam o reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão do Beato Carlo Acutis. Este passo crucial abre caminho para a canonização de Carlo, que será oficialmente declarado santo.
O milagre que permite a canonização de Carlo Acutis envolveu a cura milagrosa de Valeria Valverde, uma jovem de 21 anos da Costa Rica. Ela sofreu um grave acidente de bicicleta enquanto estudava em Florença, Itália, em 2022. E, em busca de ajuda do céu, a mãe de Valeria visitou o túmulo do Beato Carlo Acutis para pedir sua intercessão. Dias depois, a contusão hemorrágica no cérebro de Valeria desapareceu completamente — uma recuperação inexplicável pelos médicos.
A canonização de Carlo Acutis estava inicialmente marcada para o dia 27 de abril de 2025. Porém, em virtude do falecimento do então Santo Padre, o Papa Francisco, ocorrido no dia 21 de abril, a cerimônia foi cancelada. Uma nova data foi definida após a eleição do Papa Leão XIV: Carlo Acutis foi canonizado no dia 7 de setembro de 2025.
O kit de santidade de Carlo Acutis
O próprio Carlo elaborou o que ele chamou de “kit de santidade”3.
“Quero lhe revelar alguns dos meus segredos muito especiais que ajudarão você a chegar rapidamente à santidade. Não se esqueça de que você também pode se tornar santo! Antes de qualquer coisa, você tem de querer isso, de todo o coração — e se você ainda não o deseja, peça-o com insistência ao Senhor. Procure ir à Santa Missa todos os dias, e tome a Sagrada Comunhão.
Se for possível, faça alguns momentos de adoração Eucarística em frente ao Sacrário onde Jesus está realmente presente. Você verá como seu nível de santidade aumentará prodigiosamente.
Lembre-se de rezar o Santo Rosário todos os dias.
Leia todos os dias uma passagem da Sagrada Escritura.
Se puder, faça a Confissão toda semana, mesmo dos pecados veniais.
Tome frequentemente resoluções e ofereça sacrifícios ao Senhor e a Nossa Senhora para ajudar os outros.
Peça constantemente a ajuda de seu Anjo da Guarda, que deve se tornar seu melhor amigo.”
Carlo Acutis e a nossa vida
A devoção a Carlo Acutis não para de crescer “muitos relatos vêm da América do Sul, da Argentina, do Brasil, muitos relatos vêm da América Central, do México.” 2
Carlo Acutis é para nós um modelo de “santo da porta ao lado” — termo utilizado pelo Papa Francisco para se referir àqueles que vivem perto de nós e são reflexo da presença de Deus. Ou seja, aqueles santos da qual a santidade não envolve grandes feitos ou ações extraordinárias, mas uma vivência comum, encarando a vida com amor e tendo Cristo como seu centro e o céu como fim último. Nesta perspectiva, é importante assumir um compromisso quotidiano de santificação nas condições, deveres e circunstâncias da nossa vida, procurando viver tudo com amor e caridade. 4
A Bibliotequinha, selo infantil da Minha Biblioteca Católica, lançou uma coleção especial de histórias em quadrinhos que apresentam, de forma acessível e envolvente, a vida de São Carlo Acutis e sua profunda devoção à Eucaristia.
O primeiro volume, Carlo Acutis e a Eucaristia, narra a história de Carlo desde a infância até sua morte precoce, destacando sua fé sincera, seu amor pela presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento e o projeto que idealizou para tornar os milagres eucarísticos mais conhecidos no mundo inteiro.
Já os volumes Milagres Eucarísticos I e II apresentam os principais relatos reunidos por Carlo em sua famosa exposição, testemunhos que revelam a presença viva de Cristo na Eucaristia ao longo da história da Igreja.
Os livros podem ser adquiridos separadamente ou em um combo com os três volumes. Uma leitura que inspira, evangeliza e nos aproxima ainda mais do mistério que encantava o coração de Carlo.
Livro sobre Carlo Acutis
A Minha Biblioteca Católica lançou uma edição inédita e exclusiva sobre São Carlo Acutis — o jovem que mostrou que a santidade é possível mesmo entre videogames, pizza e calça jeans. O livro revela detalhes de sua vida: sua amizade com Jesus na Eucaristia, o carinho pela Virgem Maria, o apostolado no dia a dia e a fé firme diante da morte. Com fotos inéditas em papel especial, meditações escritas por ele próprio, prefácio da mãe e um posfácio sobre o milagre de sua beatificação no Brasil, esta obra é mais que uma biografia: é um testemunho de santidade no nosso tempo.
Além do livro, o box inclui um ícone devocional, uma novena e um guia de leitura com reflexões sobre o chamado universal à santidade. Tudo convida a olhar para Carlo como exemplo — e como intercessor — e a recordar sua grande lição: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.” Saiba mais!
VATICAN NEWS, Quem é Carlo Acutis?[↩][↩][↩][↩]
VATICAN NEWS, Carlo Acutis, um olhar para o futuro e um coração cheio de Deus[↩][↩]
Maillard, Jean-Baptiste e ; Maillard, Marie. Carlo Acutis: sua vida, seu exemplo e seus milagres. Tradução: Marcelo Gomes. — Dois Irmãos, RS: Minha Biblioteca Católica, 2025. p.294[↩]
Papa Francisco, Angelus, 1º de novembro de 2019[↩]
FONTE: https://bibliotecacatolica.com.br/blog/devocao/carlo-acutis/

