EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PÓS-SINODAL
RECONCILIATIO ET PAENITENTIA
DE SUA SANTIDADE
JOÃO PAULO II
AO EPISCOPADO,
AO CLERO E AOS FIÉIS
SOBRE A
RECONCILIAÇÃO E A PENITÊNCIA
NA MISSÃO DA IGREJA HOJE
INTRODUÇÃO
ORIGEM E SIGNIFICADO DO DOCUMENTO
1. Falar de Reconciliação e Penitência, para os homens e mulheres do
nosso tempo, é convidá-los a reencontrar, traduzidas na sua linguagem,
as próprias palavras com que o nosso Salvador e Mestre Jesus Cristo quis
iniciar a sua pregação: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho», (1) ou seja, acolhei o anúncio jubiloso do amor, da adopção como filhos de Deus e, consequentemente, da fraternidade.
Porque é que a Igreja propõe de novo este tema e este convite?
A ânsia de conhecer melhor e de compreender o homem de hoje e o mundo
contemporâneo, de lhe decifrar o enigma e desvendar o seu mistério, de
discernir os fermentos de bem ou de mal que nele se agitam, leva muitos,
de há um certo tempo a esta parte, a fixar no mesmo homem e neste mundo
um olhar interrogativo. É o olhar do historiador e do sociólogo, do
filósofo e do teólogo, do psicólogo e do humanista, do poeta e do
místico; e é, sobretudo, o olhar preocupado, se bem que carregado de
esperança, do pastor.
Um tal olhar revela-se, de modo exemplar, em cada uma das páginas da importante Constituição pastoral do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes sobre
a Igreja no mundo contemporâneo, particularmente na sua ampla e
perspicaz introdução. Esse olhar revela-se, de igual modo, em alguns
Documentos emanados da sabedoria e da caridade pastoral dos meus
veneráveis Predecessores, cujos luminosos pontificados ficaram marcados
pelo acontecimento histórico e profético que foi esse Concílio
Ecuménico.
Como os outros olhares, também o olhar do pastor descobre,
infelizmente, entre diversas características do mundo e da humanidade do
nosso tempo, a existência de numerosas, profundas e dolorosas divisões.
Um mundo despedaçado
2. Estas divisões manifestam-se nas relações entre as pessoas e entre
os grupos, como também ao nível das colectividades mais amplas: Nações
contra Nações, e blocos de países contrapostos, numa árdua busca de
hegemonia. Na raiz das rupturas não é difícil identificar conflitos que,
em vez de serem resolvidos mediante o diálogo, se agudizam no confronto
e na oposição.
Ao indagar sobre os elementos geradores de divisão, observadores
atentos apontam os mais variados: desde a crescente disparidade entre
grupos, classes sociais e países, aos antagonismos ideológicos, nem por
sombras extintos; desde a contraposição dos interesses económicos às
polarizações políticas; desde as divergências tribais à s discriminações
por motivos sócio-religiosos. De resto, algumas realidades, bem à vista
de todos, constituem como que o rosto lastimoso da divisão, de que são
fruto e de que acentuam a gravidade, com irrefutável realismo. Podem
recordar-se, entre tantos outros dolorosos fenômenos sociais do nosso
tempo:
- o espezinhar dos direitos fundamentais da pessoa humana, sendo o
primeiro entre eles o direito à vida e a uma digna qualidade de vida; e
isso apresenta-se mais escandaloso, na medida em que coexiste com uma
retórica, nunca antes conhecida, sobre os mesmos direitos;
- as insídias e as pressões contra a liberdade dos indivíduos e das
colectividades, sem excluir a liberdade de manter, professar e praticar a
própria fé, que é mesmo das mais atingidas e ameaçadas;
- as várias formas de discriminação: racial, cultural, religiosa, etc.;
- a violência e o terrorismo;
- o uso da tortura e as formas injustas e ilegítimas de repressão;
- a acumulação de armas convencionais ou atômicas, a corrida aos
armamentos, com despesas bélicas que poderiam servir para aliviar a
miséria imerecida de povos social e economicamente em condições
deprimentes;
- a distribuição iníqua dos recursos do mundo e dos bens da
civilização, que atinge o seu cúmulo num tipo de organização social, por
força da qual a distância entre as condições humanas dos ricos e dos
pobres aumenta cada vez mais. (2) A potência avassaladora desta divisão faz do mundo em que vivemos um mundo despedaçado, (3) até mesmo nos seus fundamentos.
Por outro lado, uma vez que a Igreja, sem se identificar com o mundo, nem ser do mundo, está inserida no mundo e está em diálogo com o mundo, (4)
não é para admirar que se notem na sua própria estrutura repercussões e
sinais da divisão que dilacera a sociedade humana. Para além das cisões
entre as Comunidades cristãs que de há séculos a contristam, a Igreja
experimenta hoje no seu seio, aqui e além, divisões entre as suas
próprias componentes, causadas pela diversidade de pontos de vista e de
escolhas, no campo doutrinal e pastoral. (5) Também estas divisões podem, por vezes, parecer irremediáveis.
Por mais impressionantes que se apresentem tais lacerações à primeira
vista, só observando-as em profundidade se consegue individuar a sua
raiz: esta encontra-se numa ferida no íntimo do homem. À luz da fé chamamos-lhe pecado, começando pelo pecado original,
que cada um traz consigo desde o nascimento, como uma herança recebida
dos primeiros pais, até aos pecados que cada um comete, abusando da
própria liberdade.
Nostalgia de reconciliação
3. E, no entanto, o mesmo olhar indagador, se é suficientemente
perspicaz, captará no seio da divisão um desejo inconfundível, da parte
dos homens de boa vontade e dos verdadeiros cristãos, de recompor as
fracturas, de cicatrizar as lacerações e de instaurar, a todos os
níveis, uma unidade essencial. Este desejo comporta, em muitos casos,
uma verdadeira nostalgia de reconciliação, mesmo quando não é usada tal
palavra.
Para alguns, trata-se como que de uma utopia, a qual poderia
tornar-se a alavanca ideal para uma verdadeira transformação da
sociedade; para outros, apresenta-se, ao contrário, como o objecto de
uma árdua conquista e, portanto, uma meta a atingir, através de um sério
empenhamento de reflexão e de acção. Em qualquer caso, a aspiração a
uma reconciliação sincera e consistente é, sem sombra de dúvida, um
móbil fundamental da nossa sociedade, como que reflexo de um
irreprimível desejo de paz; e é-o tão vigorosamente — por mais paradoxal
que pareça — quanto mais perigosos são os próprios factores de divisão.
A reconciliação, todavia, não poderá ser menos profunda do que se
apresenta a divisão. A nostalgia da reconciliação e a própria
reconciliação serão plenas e eficazes, na medida em que atingirem — para
a curar — aquela dilaceração primordial, que é a raiz de todas as
outras, ou ou seja, o pecado.
A visão do Sínodo
4. Portanto, todas as instituições ou organizações, que se destinam
ao serviço do homem e interessadas em salvá-lo nas suas dimensões
fundamentais, hão-de volver um olhar penetrante para a reconciliação,
para aprofundar o seu significado e todo o seu alcance e tirar daí as
necessárias consequências para a acção.
A um olhar assim não podia eximir-se a Igreja de Jesus Cristo. Com
dedicação de Mãe e inteligência de Mestra, ela, solícita e atenta,
aplica-se em captar na sociedade, com os sinais da divisão, também
aqueles outros não menos eloquentes e significativos da busca de uma
reconciliação. A Igreja sabe, de facto, que lhe foi dada, especialmente a
ela, a possibilidade e lhe está confiada a missão de tornar conhecido o
sentido verdadeiro, profundamente religioso, e as dimensões integrais
da reconciliação, contribuindo assim, já só com isso, para esclarecer os
termos essenciais da questão da unidade e da paz.
Os meus Predecessores não cessaram de pregar a reconciliação e de
convidar a pô-la em prática a humanidade inteira, bem como cada sector e
cada parcela da comunidade humana que viam dilacerada e dividida. (6)
E eu próprio, por um impulso interior, que obedecia ao mesmo tempo —
estou certo disso — à inspiração do Alto e aos apelos da humanidade, em
dois momentos diversos, ambos solenes e bem importantes, quis pôr em
foco a tema da reconciliação: em primeiro lugar, convocando a VI
Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos; e, em segundo lugar, fazendo dele
o ponto central do Ano Jubilar, proclamado para celebrar o 1950°
aniversário da Redenção. (7)
E quando houve de designar um tema para o Sínodo encontrei-me
plenamente de acordo com o que tinha sido sugerido por muitos dos meus
Irmãos no Episcopado, ou seja, quanto ao tão fecundo tema de reconciliação, em estreita ligação com o da penitência. (8)
O termo e o próprio conceito de penitência são bastante complexos. Se a relacionarmos com a metánoia, a que se referem os Sinópticos, a penitência significa então a íntima mudança do coração sob o influxo da Palavra de Deus e na perspectiva do Reino. (9) Mas penitência quer dizer também mudar de vida, em coerência com a mudança do coração; e, neste sentido, o fazer penitência completa-se com o produzir frutos condignos de arrependimento: (10) é a existência toda que se torna penitêncial, aplicada numa contínua caminhada em tensão para o que é melhor. Fazer penitência, no entanto, só será algo de autêntico e eficaz se se traduzir em actos e gestos de penitência. Neste sentido, penitência significa, no vocabulário cristão teológico e espiritual, a ascese, isto é, o esforço concreto e quotidiano do homem, amparado pela graça de Deus, por perder a própria vida, por Cristo, como único modo de a ganhar: (11) esforço por se despojar do homem velho e revestir-se do novo; (12) por superar em si mesmo o que é carnal, para que prevaleça o que é espiritual; (13) e esforço por se elevar continuamente das coisas de cá de baixo para as lá do alto, onde está Cristo. (14) A penitência, portanto, é a conversão que passa do coração as obras e, por conseguinte, à vida toda do cristão.
Em cada um destes significados, a penitência anda intimamente ligada com a reconciliação,
uma vez que reconciliar-se com Deus, consigo mesmo e com os outros
pressupõe que se supera a ruptura radical, que é o pecado; ora isto só
se realiza através da transformação interior ou conversão, que frutifica
na vida mediante os actos de penitência.
O documento-base do Sínodo (chamado também Lineamenta =
Esboço), preparado só com a finalidade de apresentar o tema, acentuando
alguns dos seus aspectos fundamentais, permitiu as Comunidades
eclesiais, que existem pelo mundo, reflectir durante quase dois anos,
sobre estes aspectos de uma questão — qual é a da conversão e da
reconciliação — que interessa a todos; e, além disso, de a ela ir buscar
um renovado dinamismo para a vida e para o apostolado cristão. A
reflexão foi mais aprofundada depois, na preparação imediata para os
trabalhos sinodais, graças ao Documento de trabalho
(«Instrumentum laboris»), enviado a seu tempo aos Bispos e aos seus
colaboradores. E, por fim, durante um mês inteiro, os Padres sinodais,
assistidos por todos aqueles que foram chamados para a Assembleia
propriamente dita, com grande sentido de responsabilidade trataram do
mesmo tema e dos problemas, numerosos e variados, com ele conexos. Do
debate, do estudo em comum e da assídua e cuidadosa indagação promanou
um amplo e precioso tesouro, que as Propostas («Propositiones») finais resumem na sua essência.
A visão do Sínodo não ignora os actos de reconciliação (alguns dos
quais passam quase inobservados na sua verificação quotidiana) que,
embora em graus diversos, servem para acabar com as muitas tensões, para
superar os muitos conflitos e para vencer as pequenas e grandes
divisões, restabelecendo a unidade. A preocupação principal do Sínodo,
porém, era a de encontrar, no âmago destes actos dispersos, a raiz
escondida, uma reconciliação «fontal», por assim dizer, operante no
coração e na consciência do homem.
O carisma e, simultaneamente, a originalidade da Igreja, no que
respeita à reconciliação, qualquer que seja o nível em que deva ser
posta em prática, residem no facto de a mesma Igreja ir sempre buscar a
sua origem àquela reconciliação fontal. Em virtude da sua missão
essencial, a Igreja sente-se, de facto, no dever de chegar até as raizes
da laceração primordial do pecado, para aí operar o saneamento e
restabelecer como que uma reconciliação, também ela primordial, que seja
o princípio eficaz de toda a verdadeira reconciliação. Foi isto que a
Igreja teve em vista e propôs, mediante o Sínodo.
Desta reconciliação nos fala a Sagrada Escritura, convidando-nos a fazer todos os esforços para alcançá-la; (15) mas diz-nos, por outro lado, que ela é, primeiro que tudo, um dom misericordioso de Deus ao homem. (16)
A história da Salvação — a salvação de toda a humanidade, como a de
cada homem, em qualquer momento — é a história admirável de uma
reconciliação: aquela reconciliação pela qual Deus, que é Pai, no Sangue
e na Cruz do Seu Filho feito homem, reconciliou consigo o mundo,
fazendo nascer assim una nova família de reconciliados.
A reconciliação torna-se necessária porque se deu a ruptura do
pecado, da qual derivaram todas as outras formas de ruptura no íntimo do
homem e à sua volta. A reconciliação, portanto, para ser total exige
necessariamente a libertação do pecado, rejeitado nas suas raízes mais
profundas. Por isso, há uma estreita ligação interna, que une conversão e reconciliação: é impossível dissociar as duas realidades, ou falar de uma sem falar da outra.
O Sínodo falou, ao mesmo tempo, da reconciliação de toda a família
humana e da conversão do coração de cada pessoa, do seu regresso a Deus,
querendo confirmar e proclamar que a união entre os homens não se
poderá realizar sem a mudança interior de cada um. A conversão pessoal é o caminho necessário para a concórdia entre as pessoas. (17)
Quando a Igreja anuncia a boa nova da reconciliação ou se propõe
torná-la realidade através dos Sacramentos, desempenha um verdadeiro
papel profético, denunciando os males do homem na sua nascente
contaminada indicando a raiz das divisões e infundindo a esperança de
poder superar as tensões e os conflitos, para chegar à fraternidade, à
concórdia e à paz, em todos os níveis e em todas as camadas da sociedade
humana. Ela transforma uma condição histórica de ódio e de violência
numa civilização de amor; ela proporciona a todos o princípio evangélico
e sacramental daquela reconciliação «fontal», da qual brotam todos os
outros gestos ou actos de reconciliação, mesmo a nível social. É desta
reconciliação, fruto da conversão, que trata a presente Exortação
Apostólica.
Com efeito, como já aconteceu depois das três precedentes Assembleias
sinodais, também desta vez os próprios Padres quiseram deixar nas mãos
do Bispo de Roma, Pastor universal da Igreja e Chefe do Colégio
episcopal, na sua qualidade de Presidente do Sínodo, as conclusões do
próprio trabalho. Aceitei, como grave e grato dever do meu ministério, a
tarefa de colher na imensa riqueza do Sínodo para apresentar ao Povo de
Deus, qual fruto do mesmo Sínodo, uma mensagem doutrinal e pastoral
sobre o tema da penitência e da reconciliação. Tratarei, pois, na
primeira parte, da Igreja no desempenho da sua missão reconciliadora e
na actividade de conversão dos corações, pelo abraço renovado entre o
homem e Deus, entre o homem e o seu irmão e entre o homem e tudo o que
foi criado; na segunda parte, será indicada a causa radical de todas as
dilacerações ou divisões entre os homens e, antes de mais, em relação
com Deus: o pecado; por fim, apontarei aqueles meios que permitem à
Igreja promover e suscitar a plena reconciliação dos homens com Deus e,
consequentamente, dos homens entre si.
O Documento que agora confio aos filhos da Igreja, bem como a todos
aqueles que, crentes ou não, olham a mesma Igreja com interesse e ânimo
sincero, pretende ser a resposta que se impõe a tudo aquilo que o Sínodo
me pediu. Entretanto, ele é também — faço questão de o declarar, para
satisfazer a um imperativo de verdade e de justiça — obra do mesmo
Sínodo. O conteúdo destas páginas, de facto, dele é proveniente: da sua
preparação remota ou próxima, do Documento de trabalho, das intervenções na «Sala Sinodal», nas reuniões de grupo («circuli minores») e, sobretudo, das sessenta e três Propostas
(«Propositiones»): encontra-se aqui o fruto do trabalho conjunto dos
Padres, entre os quais não faltavam os representantes das Igrejas
Orientais, cujo património teológico, espiritual e litúrgico é tão rico e
venerável, também pelo que respeita à matéria que aqui nos interessa.
Além disso, o Conselho da Secretaria do Sínodo, em duas importantes
sessões, avaliou os resultados e as orientações da Assembleia sinodal,
logo que esta terminou, pôs em evidência a dinâmica das referidas Propostas
(«Propositiones») e traçou as linhas julgadas mais idóneas, para a
estrutura do presente Documento. Estou grato a todos aqueles que
realizaram este trabalho, enquanto, fiel à minha missão, quero aqui
transmitir aquilo que, no tesouro doutrinal e pastoral do Sínodo, me
parece providencial para a vida de tantos homens, nesta hora, a um tempo
magnífica e difícil, da história.
Convém fazê-lo — e afigura-se algo especialmente significativo —
enquanto está ainda viva a recordação do Ano Santo, todo ele vivido sob o
signo da penitência, conversão e reconciliação. Que esta minha
Exortação, confiada aos Irmãos no Episcopado e aos seus colaboradores
Presbíteros e Diáconos, aos Religiosos e Religiosas, a todos os Fiéis e
aos homens e mulheres de consciência recta, possa constituir não apenas
um instrumento de purificação, de enriquecimento e aprofundamento da
própria fé pessoal, mas também um fermento capaz de estimular no coração
do mundo, a paz e a fraternidade, a esperança e a alegria, valores que
brotam do Evangelho acolhido, meditado e vivido, dia a dia, olhando para
o exemplo de Maria, Mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual aprouve
a Deus reconciliar consigo todas as coisas. (18)
PRIMEIRA PARTE
CONVERSÃO E RECONCILIAÇÃO:
TAREFA E COMPROMISSO DA IGREJA
CAPÍTULO PRIMEIRO
UMA PARÁBOLA DA RECONCILIAÇÃO
5. Ao iniciar esta Exortação Apostólica, vem-me à mente aquela página
extraordinária de São Lucas, que já procurei ilustrar num Documento
precedente. (19) Refiro-me à parábola do filho pródigo.(20)
Do irmão que se tinha perdido...
«Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao Pai: "Pai, dá-me a
parte da herança que me compete", conta Jesus ao apresentar as
dramáticas vicissitudes daquele jovem: a aventurosa partida da casa
paterna, a dissipação de todos os seus bens numa vida dissoluta e vazia,
os dias tenebrosos da distância e da fome e, pior ainda, da dignidade
perdida, da humilhação e da vergonha; e, por fim, a nostalgia da própria
casa, a coragem de regressar e o acolhimento do pai. Este, certamente,
não tinha esquecido o filho; ao contrário, conservara intactos o afecto e
a estima para com ele. E assim, esperara-o sempre; e agora abraça-o,
enquanto inicia a grande festa do regresso «daquele que estava morto e
voltou à vida, se tinha perdido e foi encontrado».
O homem, — cada um dos homens — é este filho pródigo: fascinado pela
tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a própria
existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o
tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que
tenta construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo
da própria miséria, pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o
pai da parábola, Deus fica à espreita do regresso do filho, abraça-o à
sua chegada e põe a mesa para o banquete do novo encontro, com que se
festeja a reconciliação.
O que nesta parábola sobressai mais é o acolhimento festivo e amoroso
do pai ao filho que regressa: imagem da misericórdia de Deus sempre
pronto a perdoar. Assentemos desde já nisto: a reconciliação é
principalmente um dom do Pai celeste.
...ao irmão que ficara em casa
6. Mas a parábola faz entrar em cena também o irmão mais velho, que
recusa ocupar o seu lugar no banquete. Reprocha ao irmão mais novo os
seus extravios e ao pai o acolhimento que lhe dispensou, enquanto a ele,
morigerado e trabalhador, fiel ao pai e à casa, nunca foi permitido —
diz ele — fazer uma festa com os amigos. Sinal de que não compreende a
bondade do pai. Enquanto este irmão, demasiado seguro de si mesmo e dos
próprios méritos, ciumento e desdenhoso, cheio de azedume e de raiva,
não se converteu e se reconciliou com o pai e com o irmão, o banquete
ainda não era, no sentido pleno, a festa do encontro e do convívio
recuperado.
O homem — cada um dos homens — é também este irmão mais velho. O
egoísmo torna-o ciumento, endurece-lhe o coração, cega-o e leva-o a
fechar-se aos outros e a Deus. A benignidade e a misericórdia do pai
irritam-no e incomodam-no; a felicidade do irmão reencontrado tem um
sabor amargo para ele. (21) Também sob este aspecto ele precisa de se converter para se reconciliar.
A parábola do filho pródigo é, antes de mais, a história inefável do
grande amor de um Pai — Deus — que oferece ao filho, que a Ele retorna, o
dom da reconciliação plena. E ao evocar, na figura do irmão mais velho,
o egoísmo que divide os irmãos entre si, ela torna-se também a história
da família humana: mostra a nossa situação e indica o caminho a
percorrer. O filho pródigo, com a sua ânsia de conversão, de regresso
aos braços do pai e de perdão, representa aqueles que pressentem no
fundo da própria consciência a nostalgia de uma reconciliação a todos os
níveis e sem reserva, e têm a intuição, com íntima certeza, de que ela
só será possível, se derivar de uma primeira e fundamental
reconciliação: aquela reconciliação que leva o homem da distância à
amizade filial com Deus, do qual reconhece a misericórdia infinita.
Lida, porém, na perspectiva do outro filho, a parábola retrata a
situação da família humana dividida pelos egoísmos, põe em evidência a
dificuldade em secundar o desejo e a nostalgia de uma só família
reconciliada e unida; e, por conseguinte, apela para a necessidade de
uma profunda transformação dos corações, pela redescoberta da
misericórdia do Pai e pela vitória sobre a incompreensão e a hostilidade
entre irmãos.
À luz desta inesgotável parábola da misericórdia que apaga o pecado, a
Igreja, acolhendo o apelo que nela está contido, compreende a sua
missão de empenhar-se, seguindo as pegadas do Senhor, pela conversão dos
corações e pela reconciliação dos homens com Deus e entre si, duas
realidades que estão intimamente conexas.
CAPÍTULO SEGUNDO
NAS FONTES DA RECONCILIAÇÃO
À luz de Cristo Reconciliador
7. Como se deduz da parábola do filho pródigo, a reconciliação é um dom de Deus e uma iniciativa sua.
Mas a nossa fé ensina-nos que esta iniciativa se concretiza no mistério
de Cristo redentor e reconciliador, que liberta o homem do pecado sob
todas as suas formas. O próprio São Paulo não hesita em resumir em tal
tarefa e função a incomparável missão de Jesus de Nazaré, Verbo e Filho
de Deus feito homem.
Também nós podemos partir deste mistério central da economia da salvação
e ponto-chave da cristologia do Apóstolo. «Se, de facto, sendo nós
inimigos, fomos reconciliados com Deus, mediante a morte do Seu Filho —
escreve ele aos Romanos — muito mais, agora que estamos reconciliados,
seremos salvos pela sua vida. E não só isto; mas também nos gloriamos em
Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual, agora, obtivemos a
reconciliação». (22)
Sendo assim, uma vez que «Deus nos reconciliou consigo por meio de
Cristo» Paulo sente-se inspirado a exortar os cristãos de Corinto:
«Reconciliai-vos com Deus».(23)
De tal missão reconciliadora mediante a morte na Cruz, falava noutros
termos o evangelista João, ao observar que Cristo devia morrer «para
que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus que andavam
dispersos». (24)
São Paulo permite-nos, ainda, alargar a nossa visão da obra de Cristo
a dimensões cósmicas, quando escreve que n'Ele o Pai reconciliou
consigo todas as criaturas, as do céu e as da terra. (25) Pode dizer-se de Cristo Redentor, justamente, que «no tempo da ira foi feito reconciliação», (26) e que, se Ele é «a nossa paz», (27) é também a nossa reconciliação.
É com toda a razão que a sua paixão e morte, sacramentalmente
renovadas na Eucaristia, são chamadas pela Liturgia «sacrifício de
reconciliação»: (28)
reconciliação com Deus e com os irmãos, dado que o próprio Jesus ensina
que a reconciliação fraterna deve realizar-se antes do sacrifício. (29)
A partir destas e de outras significativas passagens do Novo
Testamento, é legitimo, portanto, fazer convergir as reflexões sobre
todo o mistério de Cristo, em torno da sua missão de Reconciliador. Há
que proclamar, portanto, mais uma vez, a fé da Igreja no acto redentor
de Cristo, no mistério pascal da sua morte e ressurreição, enquanto
causa da reconciliação do homem, no seu duplo aspecto de libertação do
pecado e de comunhão de graça com Deus.
E exactamente perante o quadro doloroso das divisões e das dificuldades da reconciliação entre os homens, convido a olhar para o mistério da Cruz
(«mysterium Crucis»), como para o drama mais alto, no qual Cristo
conhece e sofre profundamente o drama da divisão do homem em relação a
Deus, ao ponto de clamar com o Salmista: «Meu Deus, meu Deus, porque me
abandonaste?»; (30) e realiza ao mesmo tempo a nossa reconciliação. O olhar fixo no mistério do Gólgota deve fazer-nos recordar sempre aquela dimensão «vertical» da divisão e da reconciliação, que diz respeito à relação homem-Deus, e que, numa visão de fé, prevalece sempre sobre a dimensão «horizontal»,
isto é, sobre a realidade da divisão e sobre a necessidade da
reconciliação entre os homens. Sabemos, de facto, que tal reconciliação
entre os homens não é e não pode ser senão o fruto do acto redentor de
Cristo, morto e ressuscitado para destroçar o reino do pecado,
restabelecer a aliança com Deus e abater assim o muro de separação, (31) que o pecado tinha erguido entre os homens.
A Igreja reconciliadora
8. Mas — como dizia São Leão Magno, ao falar, da paixão de Cristo —
«tudo aquilo que o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do
mundo, nós não o conhecemos somente pela história das suas acções
passadas, mas sentimo-lo, também, na eficácia do que Ele realiza no
presente». (32)
Sentimos a reconciliação, operada na sua humanidade, na eficácia dos
sagrados mistérios celebrados pela sua Igreja, pela qual Ele se entregou
a si mesmo, constituindo-a sinal e, conjuntamente, instrumento de
salvação. é isto que afirma São Paulo, ao escrever que Deus deu aos
Apóstolos de Cristo uma participação na sua obra reconciliadora. «Deus -
diz ele - confiou-nos o ministério da reconciliação ... as palavras da
reconciliação». (33)
Nas mãos e na boca dos Apóstolos, seus mensageiros, o Pai depôs misericordiosamente um ministério de reconciliação, que eles exercem de maneira singular, em virtude do poder de agir «in persona Christi». Mas também a toda a comunidade dos fiéis, à inteira estrutura da Igreja, é confiada a mensagem da reconciliação, ou seja, a obrigação de fazer todo o possível para testemunhar a reconciliação e para a actuar no mundo.
Pode dizer-se que também o Concílio Vaticano II, ao definir a Igreja
como «sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da
unidade de todo o género humano», e ao indicar como sua função própria a
de obter a «plena unidade em Cristo» para os «homens, hoje mais
intimamente ligados por vários vínculos», (34) reconhecia que a mesma Igreja deve tender, sobretudo, para reconduzir os homens à plena reconciliação.
Em íntima conexão com a missão de Cristo, a missão da Igreja, assaz
rica e complexa, pode, portanto, resumir-se na tarefa, central para ela,
da reconciliação do homem: com Deus, consigo mesmo, com os irmãos e com
toda a criação; e isto de maneira permanente, porque — como já disse
uma outra vez — «a Igreja é, por sua natureza, sempre reconciliadora». (35)
A Igreja é reconciliadora, na medida em que proclama a mensagem da
reconciliação, como sempre fez na sua história, desde o Concílio
apostólico de Jerusalém (36)
até ao último Sínodo dos Bispos e ao recente Jubileu da Redenção. A
originalidade desta proclamação está no facto de que, para a Igreja, a reconciliação está estreitamente ligada à conversão do coração: é esta a via necessária para o entendimento entre os seres humanos.
A Igreja é reconciliadora, ainda, na medida em que mostra ao homem os
caminhos e lhe oferece os meios para a referida reconciliação em quatro
dimensões. Os caminhos são exactamente os da conversão do coração e da
vitória sobre o pecado, seja ele o egoísmo ou a injustiça, a prepotência
ou a exploração de outrem, o apego aos bens materiais ou a busca
desenfreada do prazer. Os meios são os da fiel e amorosa escuta da
Palavra de Deus, da oração pessoal e comunitária e, sobretudo, dos
Sacramentos, verdadeiros sinais e instrumentos de reconciliação, entre
os quais sobressai, precisamente sob este aspecto, aquele a que, com
razão, costumamos chamar o Sacramento da Reconciliação ou da Penitência,
ao qual voltarei em seguida.
A Igreja reconciliada
9. O meu venerável Predecessor Paulo VI teve o mérito de esclarecer
que, para ser evangelizadora, a Igreja deve começar por se mostrar ela
própria evangelizada, isto é, aberta ao anúncio pleno e integral da Boa
Nova de Jesus Cristo, para a escutar e pôr em prática. (37)
Também eu, coligindo num documento orgânico as reflexões da IV
Assembleia Geral do Sínodo, falei de uma Igreja que se catequiza na
medida em que faz catequese. (38)
Não hesito agora em retomar, aqui neste ponto, o paralelismo,
porquanto ele se aplica ao tema que estou a tratar, para afirmar que a
Igreja, para ser reconciliadora, deve começar por ser uma Igreja reconciliada.
Nesta expressão simples e linear está subjacente a convicção de que a
Igreja, para anunciar e propôr de modo cada vez mais eficaz ao mundo a
reconciliação, deve tornar-se cada vez mais uma comunidade (ainda que
fosse o «pequeno rebanho» dos primeiros tempos) de discípulos de Cristo,
unidos no empenho em se converterem continuamente ao Senhor e em
viverem como homens novos no espírito e na prática da reconciliação.
Perante os nossos contemporâneos, tão sensíveis à prova dos
testemunhos concretos de vida, a Igreja é chamada a dar o exemplo da
reconciliação, antes de mais no seu interior; e para isto, todos devemos
esforçar-nos por apaziguar os ânimos, moderar as tensões, superar as
divisões, sanar as feridas eventualmente infligidas entre irmãos, quando
se agudiza o contraste entre opções no campo do opinável, e procurar de
preferência estar unidos naquilo que é essencial para a fé e a vida
cristã, segundo a antiga máxima: In dubiis libertas, in necessariis unitas, in omnibus caritas (liberdade naquilo que é duvidoso, unidade no que é necessário e caridade em todas as coisas).
É segundo este mesmo critério, que a Igreja deve actuar também no que
se refere à sua dimensão ecuménica. De facto, para ser inteiramente
reconciliada, a Igreja sabe que deve prosseguir na busca da unidade
entre aqueles que se prezam de chamar-se cristãos, mas se encontram
separados entre si, mesmo como Igrejas ou Comunhões, e da Igreja de
Roma. Esta procura uma unidade que, para ser fruto e expressão de
verdadeira reconciliação, não quer seja fundamentada nem na dissimulação
dos aspectos que dividem, nem em compromissos tão fáceis quanto
superficiais e frágeis. A unidade deve ser o resultado de uma verdadeira
conversão de todos, do perdão recíproco, do diálogo teológico e das
relações fraternais, da oração e da plena docilidade à acção do Espírito
Santo, que é também Espírito de reconciliação.
Por fim, a Igreja, para poder dizer-se plenamente reconciliada, sente
o dever de se aplicar cada vez mais em levar o Evangelho a todos os
povos, promovendo o «diálogo da salvação» (39)com
aqueles vastos sectores da humanidade que, no mundo contemporâneo, não
compartilham a sua fé e que, devido a um crescente secularismo, até
mesmo se mantêm distantes dela e lhe opõem uma indiferença fria, quando
não a hostilizam e perseguem. A Igreja sente o dever de repetir a todos
com São Paulo: «Reconciliai-vos com Deus». (40)
Em qualquer caso, a Igreja promove uma reconciliação na verdade, pois sabe bem que não são possíveis nem a reconciliação nem a unidade, fora ou contra a verdade.
CAPÍTULO TERCEIRO
A INICIATIVA DE DEUS
E O MINISTÉRIO DA IGREJA
10. Comunidade reconciliada e reconciliadora, a Igreja não pode
esquecer que na origem do seu dom e da sua missão de reconciliação se
encontra a iniciativa, cheia de amor compassivo e de misericórdia,
daquele Deus que é amor (41) e que por amor criou os homens: (42) criou-os, com o fim de viverem em amizade com Ele e em comunhão entre si.
A reconciliação vem de Deus
Deus é fiel ao seu desígnio eterno mesmo quando o homem, induzido pelo Maligno (43)
e arrastado pelo seu orgulho, abusa da liberdade que lhe foi dada para
amar e procurar generosamente o bem, recusando a obediência ao seu
Senhor e Pai; mesmo quando o homem, em vez de responder com amor ao amor
de Deus, se opõe a Ele como a um seu rival, iludindo-se e presumindo
das suas forças, com a consequente ruptura das relações com Aquele que o
criou. Não obstante esta prevaricação do homem, Deus permanece fiel no amor.
A narração do jardim do éden leva-nos, certamente, a meditar sobre as
consequências funestas da rejeição do Pai, que se traduz na desordem
interna do homem e na ruptura da harmonia entre o homem e a mulher e
entre irmão e irmão. (44)
Também é significativa a parábola evangélica dos dois filhos que se
afastam do pai, de maneira diversa, cavando um abismo entre si. A recusa
do amor de Deus e dos seus dons de amor está sempre na raiz das
divisões da humanidade.
Mas nós sabemos que Deus, «rico em misericórdia» (45)
tal como o pai da parábola, não fecha o coração a nenhum dos seus
filhos. Espera-os, procura-os, vai alcançá-los precisamente no ponto em
que a recusa da comunhão os aprisiona no isolamento e na divisão e
chama-os a reunirem-se à volta da sua mesa, na alegria da festa do
perdão e da reconciliação.
Esta iniciativa de Deus concretiza-se e manifesta-se no acto redentor
de Cristo, que se irradia no mundo mediante o ministério da Igreja.
De acordo com a nossa fé, de facto, o Verbo de Deus fez-se carne e
veio habitar a terra dos homens, entrou na história do mundo,
assumindo-a e recapitulando-a em si. (46) Ele revelou-nos que Deus é amor e deu-nos o «mandamento novo» (47)
do amor, comunicando-nos, ao mesmo tempo, a certeza de que o caminho do
amor está aberto a todos os homens, de tal modo que não é vão o esforço
para instaurar a fraternidade universal. (48)
Vencendo, com a sua morte na Cruz, o mal e a força do pecado, pela sua
obediência cheia de amor trouxe a salvação a todos e tornou-se para
todos «reconciliação». N'Ele, Deus reconciliou o homem consigo.
A Igreja, continuando o anúncio de reconciliação que Cristo apregoou nas aldeias da Galileia e de toda a Palestina, (49)
não cessa de convidar a humanidade inteira a converter-se e a acreditar
na Boa Nova; ela fala em nome de Cristo, fazendo seu o apelo do
Apóstolo Paulo, que já recordámos: «Nós somos ... embaixadores ao
serviço de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio.
Suplicamo-vos, pois, em nome de Cristo: Reconciliai-vos com Deus». (50)
Quem aceita este apelo entra na economia da reconciliação e faz a
experiência da verdade contida naquele outro anúncio de São Paulo,
segundo o qual Cristo «é a nossa paz, ele que fez de dois povos um só,
destruindo o muro de separação, isto é, de inimizade que constituía a
barreira (...) estabelecendo a paz para reconciliar uns e outros com
Deus». (51)
Embora este texto diga directamente respeito à superação da divisão
religiosa entre Israel, como povo eleito do Antigo Testamento, e os
outros povos, todos chamados a fazer parte da Nova Aliança, ele contém,
todavia, a afirmação da nova universalidade espiritual, querida por Deus
e por Ele realizada, mediante o sacrifício do seu Filho, o Verbo feito
homem, sem limites nem exclusões de qualquer género, para todos aqueles
que se convertem e acreditam em Cristo. Todos, portanto, somos chamados a
usufruir dos frutos desta reconciliação querida por Deus: todos e cada
um dos homens, todos e cada um dos povos.
A Igreja, grande sacramento de reconciliação
11. A Igreja tem a missão de anunciar esta reconciliação e de ser o seu sacramento no mundo. A Igreja é sacramento,
isto é, sinal e instrumento de reconciliação, por diversos títulos, de
valor diferente, mas todos convergentes para a obtenção daquilo que a
iniciativa divina de misericórdia quer conceder aos homens.
É-o, acima de tudo, pela sua própria existência de comunidade
reconciliada, que testemunha e representa no mundo a obra de Cristo.
É-o, depois, pelo seu serviço de guardiã e intérprete da Sagrada
Escritura, que é Boa Nova de reconciliação, na medida em que faz
conhecer de geração em geração o desígnio de amor de Deus e indica a
cada um as vias da reconciliação universal em Cristo.
É-o, por fim, pelos sete Sacramentos que, de um modo peculiar a cada um deles, «perfazem a Igreja». (52)
Efectivamente, uma vez que comemoram e renovam o mistério da Páscoa de
Cristo, todos os Sacramentos são fonte de vida para a Igreja e, nas mãos
dela, instrumento de conversão a Deus e de reconciliação dos homens.
Outros caminhos de reconciliação
12. A missão reconciliadora é própria de toda a Igreja, mesmo e
sobretudo daquela já foi admitida à plena participação da glória divina,
com a Virgem Maria e com os Anjos e os Santos, os quais contemplam e
adoram o Deus três vezes santo. Igreja do Céu, Igreja da Terra e Igreja
do Purgatório estão misteriosamente unidas nesta cooperação com Cristo
para reconciliar o mundo com Deus.
A primeira via desta acção salvadora é a oração. Sem dúvida a Virgem Santíssima, Mãe de Cristo e da Igreja, (53)
e os Santos, que já chegaram ao termo da caminhada terrena e à posse da
glória de Deus, sustentam, com a sua intercessão, os seus irmãos
peregrinos no mundo, no empenho de conversão, de fé, de recuperação após
cada queda, de actividade para fazer crescer a comunhão e a paz na
Igreja e no mundo. É no mistério da Comunhão dos Santos, que a
reconciliação universal é actuada na sua forma mais profunda e mais
frutuosa para a salvação de todos.
Há, depois, uma outra via: a da pregação. Discípula do único Mestre
Jesus Cristo, a Igreja, por sua vez como Mãe e Mestra, não se cansa de
propor aos homens a reconciliação e não hesita em denunciar a maldade do
pecado, em proclamar a necessidade da conversão, em convidar e em pedir
aos homens que «se deixem reconciliar». Na realidade, é essa a sua
missão profética no mundo de hoje, como no de ontem: é a mesma missão do
seu Mestre e Cabeça, Jesus. Como ele, a Igreja há-de realizar sempre
tal missão com sentimentos de amor misericordioso e levar a todos as
palavras do perdão e o convite à esperança, que vêm da Cruz.
Há ainda a via, tantas vezes difícil e árdua, da acção pastoral para
trazer cada um dos homens — sejam eles quem forem e onde quer que se
encontrem — ao caminho, por vezes longo, do retorno ao Pai na comunhão
com todos os irmãos.
Há, por fim, a via do testemunho, quase sempre silencioso, que nasce
duma dupla consciência da Igreja: a de ser em si «indefectivelmente
santa», (54)
mas ao mesmo tempo necessitada de continuar «a purificar-se, dia a dia,
até que Cristo a faça comparecer na sua presença, gloriosa, sem mancha
nem ruga», dado que, por causa dos nossos pecados, por vezes «o seu
rosto resplandece menos» aos olhos de quem a vê. (55)
Este testemunho não pode deixar de assumir duas manifestações
fundamentais: ser sinal daquela caridade universal que Jesus Cristo
deixou como herança aos seus seguidores, como prova da pertença ao seu
Reino; e traduzir-se em factos sempre novos de conversão e de
reconciliação no interior e no exterior da Igreja, com a superação das
tensões, com o perdão recíproco e com o crescimento no espírito de
fraternidade e de paz, que tem de ser propagado no mundo inteiro.
Percorrendo esta via a Igreja poderá actuar validamente para fazer com
que nasça aquilo a que o meu Predecessor Paulo VI chamava «a civilização
do amor».
SEGUNDA PARTE
O AMOR MAIOR DO QUE O PECADO
O drama do homem
13. Como escreve o Apóstolo São João «se dissermos que não temos
pecado, enganamo-nos a nós próprios e a verdade não está em nós. Se
confessarmos os nossos pecados, Ele que é fiel e justo perdoar-nos-á os
pecados». (56)
Estas palavras inspiradas, escritas nos alvores da Igreja, introduzem
melhor do que qualquer outra expressão humana a reflexão sobre o pecado,
que está intimamente relacionada com o discurso sobre a reconciliação.
Elas apreendem o problema do pecado no seu horizonte antropológico,
enquanto parte integrante da verdade acerca do homem, mas inserem-no
imediatamente no horizonte divino, no qual o pecado é confrontado com a
verdade do amor de Deus, justo, generoso e fiel, que se manifesta
sobretudo pelo perdão e pela redenção. Por isso, o próprio São João
escreve pouco depois que «se (o nosso coração) de alguma coisa nos
acusa, Deus é maior do que o nosso coração». (57)
Reconhecer o próprio pecado, ou melhor — indo mais ao fundo na consideração da própria personalidade — reconhecer-se pecador,
capaz de pecar e de ser induzido ao pecado, é o princípio indispensável
do retorno a Deus. É a experiência exemplar de David, que depois de
«ter feito o mal aos olhos do Senhor», repreendido pelo profeta Natan, (58)
exclama: «Reconheço a minha culpa, o meu pecado está sempre diante de
mim. Pequei contra Vós, só contra Vós; pratiquei aquilo que é mal aos
vossos olhos». (59)
De resto, Jesus põe na boca e no coração do filho pródigo aquelas
palavras significativas: «Pai, pequei contra o Céu e contra ti». (60)
Na realidade, reconciliar-se com Deus supõe e inclui o apartar-se com
lucidez e determinação do pecado, no qual se caiu. Supõe e inclui,
portanto, o fazer penitência no sentido mais pleno do termo:
arrepender-se, manifestar o arrependimento, assumir a atitude concreta
do arrependido, que é a de quem se coloca no caminho do regresso ao Pai.
Isto é uma lei geral, que cada um deve seguir na situação particular em
que se encontra. A exposição sobre o pecado e a conversão, de facto,
não pode ser desenvolvida somente em termos abstractos.
Na condição concreta do homem pecador, em que não pode haver
conversão sem reconhecimento do próprio pecado, o ministério de
reconciliação da Igreja intervém, em qualquer hipótese, com uma
finalidade claramente penitencial, isto é, para levar o homem ao
«conhecimento de si», segundo a expressão de Santa Catarina de Sena, (61)
ao desapego do mal, ao restabelecimento da amizade com Deus, à
reordenação interior e à nova conversão eclesial. Acrescente-se que,
para além do âmbito da Igreja e dos fiéis, a mensagem e o ministério da
penitência são dirigidos a todos os homens, uma vez que todos têm
necessidade de conversão e de reconciliação. (62)
Para exercitar adequadamente tal ministério penitencial, será também necessário avaliar, com os «olhos iluminados» (63)
pela fé, as consequências do pecado, que são motivo de divisão e de
ruptura, não só no interior de cada homem, mas também nos vários
círculos em que ele vive: familiar, ambiencial, profissional e social,
como tantas vezes se pode verificar pela experiência, em confirmação da
página bíblica referente à cidade de Babel e à sua torre. (64)
Tendo a intenção de construir aquilo que devia ser, a um tempo, símbolo
e foco de unidade, aqueles homens encontraram-se mais dispersos do que
antes, confundidos na linguagem, divididos entre si e incapazes de
consenso e de convergência.
Porque falhou o ambicioso projecto? Porque «se afadigaram em vão os construtores»? (65)
Porque os homens tinham colocado como sinal e garantia da desejada
unidade unicamente uma obra das suas mãos, esquecidos da acção do
Senhor. Calcularam apenas com a dimensão horizontal do trabalho e da
vida social, descurando a dimensão vertical, pela qual se teriam
encontrado radicados em Deus, seu Criador e Senhor, e voltados na
direcção dele como fim último do seu caminho.
Ora, pode dizer-se que o drama do homem de hoje, como o do homem de
todos os tempos, consiste precisamente no seu carácter babélico.
CAPÍTULO PRIMEIRO
O MISTÉRIO DO PECADO
14. Se lermos a página bíblica da cidade e da torre de Babel à luz da
novidade evangélica e a confrontarmos com a outra página da queda dos
primeiros pais, podemos tirar daí elementos preciosos para uma tomada de
consciência do mistério do pecado. Esta expressão, na qual se repercute o que São Paulo escreve acerca do mistério da iniquidade (66)
tem em vista fazer-nos perceber o que se esconde de obscuro e de
inexplicável no pecado. Este, sem dúvida, é obra da liberdade do homem;
mas por dentro da realidade desta experiência humana agem factores,
pelos quais ela se situa para além do humano, na zona limite onde a
consciência, a vontade e a sensibilidade do homem estão em contacto com
forças obscuras que, segundo São Paulo, agem no mundo até ao ponto de
quase o senhorearem. (67)
A desobediência a Deus
Da narração bíblica relativa à construção da torre de Babel emerge um
primeiro elemento, que nos ajuda a compreender o pecado: os homens
pretenderam edificar uma cidade, reunir-se numa estrutura social, ser
fortes e poderosos sem Deus, se bem que, talvez, não contra Deus. (68)
Neste sentido, a narração do primeiro pecado no éden e a narração de
Babel, não obstante as diferenças notáveis, de conteúdo e de forma, têm
um ponto de convergência: em ambas nos encontramos diante de uma
exclusão de Deus, pela oposição frontal a um mandamento seu, por uma
atitude de rivalidade em relação a Ele, pela ilusória pretensão de ser
«como Ele». (69) Na narração de Babel a exclusão de Deus
não aparece tanto num tom de contraste com Deus, mas como esquecimento e
indiferença em relação a ele, como se e o mesmo Deus não merecesse
nenhum interesse no âmbito dos desígnios empreendedores e associativos
do homem. Mas em ambos os casos a relação com Deus é cortada com
violência. No caso do éden aparece com toda a sua gravidade e
dramaticidade aquilo que constitui a essência mais íntima e mais obscura
do pecado: a desobediência a Deus, à sua lei, à norma moral que ele deu ao homem, gravando-lha no coração e confirmando-a e aperfeiçoando-a com a revelação.
Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é
isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a
ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à negação de Deus e da sua existência: é o fenómeno chamado ateísmo.
Desobediência do homem, que — com um acto da sua liberdade —
não reconhece o senhorio de Deus sobre a sua vida, pelo menos naquele
momento determinado em que viola a sua lei.
A divisão entre os irmãos
15. Nas narrações bíblicas acima recordadas a ruptura com Deus desemboca dramaticamente na divisão entre os irmãos.
Na descrição do «primeiro pecado», a ruptura com Javé espedaçou, ao
mesmo tempo, o fio da amizade que unia a família humana; tanto assim que
as páginas do Génesis que se seguem nos mostram o homem e a mulher, como que a apontarem com o dedo acusador um contra o outro; (70) depois o irmão que, hostil ao irmão, acaba por tirar-lhe a vida. (71)
Segundo a narração dos factos de Babel, a consequência do pecado é a
desagregação da família humana, que já começara com o primeiro pecado e
agora chega ao extremo na sua forma social.
Quem quiser indagar sobre o mistério do pecado não pode deixar de
considerar esta concatenação de causa e efeito. Como ruptura com Deus, o
pecado é o acto de desobediência de uma criatura que, pelo menos
implicitamente, enjeita Aquele do qual proveio e que a mantém em vida;
é, portanto, um acto suicida.
E dado que com o pecado o homem se recusa a submeter-se a Deus,
também se transtorna o seu equilíbrio interior; e, precisamente no seu
íntimo, irrompem contradições e conflitos. Assim dilacerado, o homem
produz, quase inevitavelmente, uma laceração no tecido das suas relações
com os outros homens e com o mundo criado. É uma lei e um facto
objectivo, que têm confirmação em muitos momentos da psicologia humana e
da vida espiritual, como aliás na realidade da vida social, onde é
fácil observar as repercussões e os sinais da desordem interior.
O mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador
abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso, pode
falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob um outro aspecto é social, enquanto e porque tem também consequências sociais.
Pecado pessoal e pecado social
16. O pecado, no sentido próprio e verdadeiro, é sempre um acto da pessoa,
porque é um acto de um homem, individualmente considerado, e não
propriamente de um grupo ou de uma comunidade. Este homem pode ser
condicionado, pressionado, impelido por numerosos e ponderosos factores
externos, como também pode estar sujeito a tendências, taras e hábitos
relacionados com a sua condição pessoal. Em não poucos casos, tais
factores externos e internos podem atenuar, em maior ou menor grau, a
sua liberdade e, consequentemente, a sua responsabilidade e
culpabilidade. No entanto, é uma verdade de fé, também confirmada pela
nossa experiência e pela nossa razão, que a pessoa humana é livre. E não
se pode ignorar esta verdade, para descarregar em realidades externas —
as estruturas, os sistemas, os outros - o pecado de cada um. Além do
mais, isso seria obliterar a dignidade e a liberdade de pessoa, que se
revelam — se bem que negativa e desastrosamente — também nessa
responsabilidade do pecado cometido. Por isso, em todos e em cada um dos
homens, não há nada tão pessoal e intransferível como o mérito da
virtude ou a responsabilidade da culpa.
Como acto da pessoa, o pecado tem as suas primeiras e mais importantes consequências no próprio pecador;
ou seja, na relação dele com Deus, que é o próprio fundamento da vida
humana; e também no seu espírito, enfraquecendo-lhe a vontade e
obscurecendo-lhe a inteligência.
Chegados a este ponto, devemos perguntar-nos: a que realidade se
referiam os que, na preparação do Sínodo e no decorrer dos trabalhos
sinodais, mencionaram não poucas vezes o pecado social? A realidade que está subjacente a tal expressão e conceito faz com estes tenham, na verdade, diversos significados.
Falar de pecado social quer dizer, primeiro que tudo,
reconhecer que, em virtude de uma solidariedade humana tão misteriosa e
imperceptível quanto real e concreta, o pecado de cada um se repercute,
de algum modo, sobre os outros. Está nisto uma outra faceta daquela
solidariedade que, a nível religioso, se desenvolve no profundo e
magnífico mistério da Comunhão dos Santos, graças à qual se pode dizer que «cada alma que se eleva, eleva o mundo». (72) A esta lei da elevação corresponde, infelizmente, a lei da descida, de tal modo que se pode falar de uma comunhão no pecado,
em razão da qual uma alma que se rebaixa pelo pecado arrasta consigo a
Igreja, e, de certa maneira, o mundo inteiro. Por outras palavras não há
nenhum pecado, mesmo o mais íntimo e secreto, o mais estritamente
individual, que diga respeito exclusivamente àquele que o comete. Todo o
pecado se repercute, com maior ou menor veemência, com maior ou menor
dano, em toda a estrutura eclesial e em toda a família humana. Segundo
esta primeira acepção, a cada pecado pode atribuir-se indiscutivelmente o
carácter de pecado social.
Há certos pecados, no entanto, que constituem, pelo seu próprio
objecto, uma agressão directa ao próximo e — mais exactamente, com base
na linguagem evangélica — ao irmão. Estes são uma ofensa a Deus, porque
ofendem o próximo. A tais pecados costuma dar-se a qualificação de sociais; e é esta a segunda acepção do termo. Neste sentido, é social
o pecado contra o amor do próximo, que é tanto mais grave na Lei de
Cristo, porquanto está em jogo o segundo mandamento, que é «semelhante
ao primeiro». (73) é igualmente social
todo o pecado cometido contra a justiça, quer nas relações de pessoa a
pessoa, quer nas da pessoa com a comunidade, quer, ainda, nas da
comunidade com a pessoa. É social todo o pecado contra os
direitos da pessoa humana, a começar pelo direito à vida, incluindo a do
nascituro, ou contra a integridade física de alguém; todo o pecado
contra a liberdade de outrem, especialmente contra a suprema liberdade
de crer em Deus e de o adorar; todo o pecado contra a dignidade e a
honra do próximo. É social todo o pecado contra o bem comum e
contra as suas exigências, em toda a ampla esfera dos direitos e dos
deveres dos cidadãos. Pode ser social tanto o pecado de comissão
como o de omissão: da parte dos dirigentes políticos, económicos e
sindicais, por exemplo, que, embora podendo, não se empenhem com
sabedoria no melhoramento ou na transformação da sociedade, segundo as
exigências e as possibilidades do momento histórico; como também da
parte dos trabalhadores, que faltem aos seus deveres de presença e de
colaboração, para que as empresas possam continuar a proporcionar o
bem-estar a eles próprios, as suas famílias e à inteira sociedade.
A terceira acepção de pecado social diz respeito as relações
entre as várias comunidades humanas. Estas relações nem sempre estão em
sintonia com a desígnio de Deus, que quer no mundo justiça, liberdade e
paz entre os indivíduos, os grupos, os povos. Assim, a luta de classes,
seja quem for o seu responsável ou, por vezes, o sistematizador, é um mal social.
Assim, a contraposição obstinada dos blocos de Nações e duma Nação
contra a outra e de grupos contra outros grupos no seio da mesma Nação, é
igualmente um mal social. Em ambos os casos, pode fazer-se a
pergunta, se é possível atribuir a alguém a responsabilidade moral de
tais males e, por conseguinte, o pecado. Ora, deve admitir-se que
realidades e situações como as que acabam de ser indicadas, ao
generalizarem-se e até mesmo ao agigantarem-se como factos sociais,
quase sempre se tornam anónimas, assim como são complexas e nem sempre
identificáveis as suas causas. Por isso, ao falar-se aqui de pecado social, a expressão tem um significado claramente analógico. Em todo o caso, falar de pecados sociais,
mesmo que seja em sentido analógico, não deve induzir ninguém a
subestimar a responsabilidade individual das pessoas; mas tem em vista
constituir um alerta para as consciências de todos, a fim de que cada um
assuma as próprias responsabilidades, no sentido de serem séria e
corajosamente modificadas essas realidades nefastas e essas situações
intoleráveis.
Dito isto, de maneira clara e inequívoca, como premissa, é preciso
acrescentar imediatamente que não é legítima nem aceitável uma acepção
do pecado social, não obstante esteja muito em voga nos nossos dias nalguns ambientes, (74) a qual, ao opôr, não sem ambiguidade, pecado social a pecado pessoal, mais ou menos inconscientemente leva a diluir e quase a eliminar o pessoal, para admitir somente as culpas e responsabilidades sociais.
Segundo esta concepção, que revela com facilidade a sua derivação de
ideologias e sistemas não cristãos — hoje, talvez, já postos de parte
por aqueles mesmos que a certa altura foram os seus fautores oficiais —
praticamente todos os pecados seriam sociais, no sentido de serem
imputáveis não tanto à consciência moral duma pessoa, quanto a uma
entidade vaga e colectividade anónima, que poderia ser a situação, o
sistema, a sociedade, as estruturas, a instituição etc.
Pois bem: a Igreja, quando fala de situações de pecado ou denuncia como pecados sociais
certas situações ou certos comportamentos colectivos de grupos sociais,
mais ou menos vastos, ou até mesmo de Nações inteiras e blocos de
Nações, sabe e proclama que tais casos de pecado social são o fruto, a acumulação e a concentração de muitos pecados pessoais.
Trata-se dos pecados pessoalíssimos de quem gera ou favorece a
iniquidade ou a desfruta; de quem, podendo fazer alguma coisa para
evitar, ou eliminar, ou pelo menos limitar certos males sociais, deixa
de o fazer por preguiça, por medo e temerosa conivência, por
cumplicidade disfarçada ou por indiferença; de quem procura escusas na
pretensa impossibilidade de mudar o mundo; e, ainda, de quem pretende
esquivar-se ao cansaço e ao sacrifício, aduzindo razões especiosas de
ordem superior. As verdadeiras responsabilidades, portanto, são das
pessoas.
Uma situação — e de igual modo uma instituição, uma estrutura, uma
sociedade — não é, de per si, sujeito de actos morais; por isso, não
pode ser, em si mesma, boa ou má.
No fundo de cada situação de pecado, porém, encontram-se
sempre pessoas pecadoras. Isto é tão verdadeiro que, se tal situação
vier a ser mudada nos seus aspectos estruturais e institucionais pela
força da lei, ou — como acontece com mais frequência, infelizmente —
pela lei da força, a mudança revela-se, na realidade, incompleta, de
pouca duração e, no fim de contas, vã e ineficaz — para não dizer mesmo
contraproducente — se não se converterem as pessoas directa ou
indirectamente responsáveis por essa mesma situação.
Pecado mortal e pecado venial
17. Mas há no mistério do pecado uma outra dimensão, sobre a qual a
inteligência do homem, nunca deixou de meditar: a da sua gravidade. É um
problema inevitável, ao qual a consciência cristã nunca se esquivou de
dar uma resposta: porquê e em que medida o pecado é grave na
ofensa que faz a Deus e na sua repercussão sobre o homem? A Igreja tem
uma doutrina própria a propósito disto e reafirma-a nos seus elementos
essenciais, sabendo embora que nem sempre é fácil, no concreto das
situações, fazer delimitações nítidas de fronteiras.
Já no Antigo Testamento e para numerosos pecados — os cometidos com deliberação, (76) as várias formas de impureza, (76) de idolatria, (77) de culto dos falsos deuses (78) — se declarava que o réu devia ser «eliminado do seu povo», o que podia significar mesmo ser condenado à morte. (79) A estes contrapunham-se outros pecados, sobretudo os cometidos por ignorância, que eram perdoados mediante um sacrifício. (80)
Com referência também a esses textos, a Igreja, já há séculos, fala constantemente em pecado mortal e pecado venial.
Mas esta distinção e estes termos recebem luz sobretudo do Novo
Testamento, no qual se encontram muitos textos que enumeram e reprovam,
com expressões enérgicas, os pecados particularmente merecedores de
condenação, (81) além e na continuidade da confirmação dos do Decálogo feita pelo próprio Jesus. (82) Quereria referir-me aqui, especialmente, a duas páginas significativas e impressionantes.
Numa passagem da sua primeira Carta, São João fala de um pecado que leva à morte (pròs thánaton) em contraposição a outro pecado que não leva à morte (mè pròs thánaton). (83) No conceito de morte,
aqui, como é óbvio, subentende-se espiritual: trata-se da perda da
verdadeira vida ou «vida eterna», que, para São João, é o conhecimento
do Pai e do Filho (84) e a comunhão e a intimidade com eles. O pecado que leva à morte parece ser, nesta passagem, a negação do Filho, (85) ou o culto de falsas divindades. (86)
Seja como for, com essa distinção de conceitos, São João parece querer
acentuar a incomensurável gravidade daquilo que é a essência do pecado, a
recusa de Deus, actuada sobretudo na apostasia e na idolatria;
ou seja, no repúdio da fé na verdade revelada e na equiparação a Deus
de certas realidades criadas, erigindo-as em ídolos ou falsos deuses. (87)
Mas o Apóstolo, nessa mesma página, quer também pôr em evidência a
certeza que provém para o cristão do facto de ser «nascido de Deus» pela
vinda do Filho: há nele uma força que o preserva da queda no pecado;
Deus guarda-o «e o Maligno não o toca». No caso de pecar por fraqueza ou
ignorância, subsiste nele a esperança da remissão, também pelo apoio
que lhe advém da oração feita em conjunto pelos irmãos.
Noutra página do Novo Testamento, no Evangelho de São Mateus, (88)
o próprio Jesus fala duma «blasfémia contra o Espírito Santo», que é
«irremissível», porque, nas suas manifestações, ela aparece como uma
obstinada recusa de conversão ao amor do Pai das misericórdias.
Trata-se, é claro, de expressões extremas e radicais: rejeição de
Deus, rejeição da sua graça e, portanto, oposição ao próprio princípio
da salvação, (89)
pela qual o homem parece fechar voluntariamente a si mesmo o caminho da
remissão. Há que ter esperança, porém, que bem poucos queiram
obstinar-se até ao fim nesta atitude de rebelião ou até de desafio a
Deus, o qual, aliás, no seu amor misericordioso é maior do que o nosso
coração, como nos ensina ainda São João. (90)
Deus pode, de facto, vencer todas as nossas resistências psicológicas e
espirituais, de tal modo que — como escreve Santo Tomás de Aquino —
«não há que desesperar da salvação de ninguém nesta vida, consideradas a
omnipotência e a misericórdia de Deus». (91)
Mas, diante do problema do embate de uma vontade rebelde com Deus
infinitamente justo, não se pode deixar de nutrir sentimentos de salutar
«temor e tremor», como sugere São Paulo; (92)e
o aviso de Jesus sobre o pecado que não é «remissível» confirma a
existência de culpas que podem trazer para o pecador, como pena, a
«morte eterna».
À luz destes e de outros textos da Sagrada Escritura, os doutores e
teólogos, os mestres espirituais e os pastores de almas distinguiram os
pecados em mortais e veniais. Santo Agostinho, entre outros, fala de letalia ou mortifera crimina, opondo-os a venialia, levia ou quotidiana. (93)
O significado que ele atribui a estes qualificativos influirá
posteriormente no Magistério da Igreja. Depois dele seria Santo Tomás de
Aquino a formular, nos termos mais claros que foi possível, a doutrina
que se tornou constante na Igreja.
Na definição e distinção dos pecados mortais e veniais,
não podia estar ausente para Santo Tomás e para a Teologia do pecado
que nele se foi inspirar, a referência bíblica e, portanto, o conceito
da morte espiritual. Segundo o Doutor Angélico, para viver
espiritualmente, o homem deve permanecer em comunhão com o princípio
supremo da vida, que é Deus, enquanto fim último de todo o seu ser e do
seu agir. Ora o pecado é uma desordem perpetrada pelo homem contra este
princípio vital. E quando, «por meio do pecado, a alma provoca uma
desordem que vai até à separação do fim último — Deus — ao qual se
encontra ligada pela caridade, então há pecado mortal; de outro modo,
todas as vezes que a desordem fica aquém da separação de Deus, então o
pecado é venial». (94)
Por esta razão, o pecado venial não priva da graça santificante, da
amizade com Deus, da caridade, nem, por conseguinte, da bem-aventurança
eterna; ao passo que tal privação é exactamente consequência do pecado
mortal.
Considerando o pecado, ademais, sob o aspecto da pena que implica, Santo Tomás com outros doutores, chama mortal ao pecado que, se não for remido, faz contrair uma pena eterna; venial, ao pecado que merece uma simples pena temporal (quer dizer, parcial e expiável na terra ou no Purgatório).
Se se atender, depois, à matéria do pecado, as ideias de
morte, de ruptura radical com Deus, sumo bem, de desvio do caminho que
leva a Deus ou de interrupção da caminhada em direcção a ele (tudo modos
de definir o pecado mortal) conjugam-se com a ideia da gravidade do
conteúdo objectivo; por isso, o pecado grave identifica-se praticamente, na doutrina e na acção pastoral da Igreja, com o pecado mortal.
Atingimos aqui o núcleo do ensino tradicional da Igreja, recordado
muitas vezes e com vigor no decorrer do recente Sínodo. Este, de facto,
não só reafirmou tudo aquilo que foi proclamado no Concílio de Trento
sobre a existência e a natureza dos pecados mortais e veniais, (95) mas quis ainda lembrar que é pecado mortal
aquele que tem por objecto uma matéria grave e que, conjuntamente, é
cometido com plena advertência e consentimento deliberado. E impõe-se
acrescentar — como se fez também no mesmo Sínodo — que alguns pecados,
quanto à sua matéria, são intrinsecamente graves e mortais. Quer
dizer, há determinados actos que, por si mesmos e em si mesmos,
independentemente das circunstâncias, são sempre gravemente ilícitos,
por motivo do seu objecto. Esses actos, se forem praticados com
suficiente advertência e liberdade, são sempre culpa grave. (96)
Esta doutrina, fundamentada no Decálogo e na pregação do Antigo Testamento e retomada no kérigma
dos Apóstolos, e que faz parte do mais antigo ensino que a Igreja tem
vindo a repetir até hoje, tem uma comprovação cabal na experiência
humana de todos os tempos. O homem sabe bem, por experiência, que na
caminhada da fé e da justiça, que o leva ao conhecimento e ao amor de
Deus nesta vida e à perfeita união com ele na eternidade, pode parar ou
distrair-se, sem abandonar, no entanto, o rumo de Deus: neste caso há
efectivamente pecado venial. Este, porém, não deverá ser
atenuado, como se, automaticamente, se tratasse de algo que pudesse ser
transcurado ou de um «pecado de pouca monta».
Sucede também que o homem igualmente sabe, por dolorosa experiência,
que com um acto consciente e livre da sua vontade pode inverter a
marcha, caminhar no sentido oposto à vontade de Deus e, desse modo,
afastar-se dele (aversio a Deo), recusando a comunhão de amor com ele, afastando-se do princípio de vida que ele é, e escolhendo, por isso mesmo, a morte.
Com toda a tradição da Igreja, chamamos pecado mortal a este
acto pelo qual um homem, com liberdade e advertência, rejeita Deus, a
sua lei, a aliança de amor que Deus lhe propõe, preferindo voltar-se
para si mesmo, para qualquer realidade criada e finita, para algo
contrário ao querer divino (conversio ad creaturam). Isto pode
acontecer de modo directo e formal, como nos pecados de idolatria,
apostasia e ateísmo; ou de modo equivalente, como em todas as
desobediências aos mandamentos de Deus em matéria grave. O homem sente
que esta desobediência a Deus corta a ligação com o seu princípio vital:
é um pecado mortal, ou seja, um acto que ofende gravemente a
Deus e acaba por se voltar contra o próprio homem, com uma força obscura
e potente de destruição.
Durante a Assembleia sinodal foi proposta por alguns Padres uma
distinção tripartida entre os pecados, que haveriam de passar a ser
classificados com veniais, graves e mortais. A
tripartição poderia pôr em realce o facto de que entre os pecados graves
existe uma gradação. Mas permanece sempre verdadeiro que a distinção
essencial e decisiva é a que existe entre pecados que destroem a
caridade e pecados que não matam a vida sobrenatural: entre a vida e a
morte não há lugar para um meio termo.
De igual modo, há-de evitar-se reduzir o pecado mortal a um acto de
«opção fundamental» contra Deus — como hoje em dia se costuma dizer —
entendendo com isso um desprezo explícito e formal de Deus e do próximo.
Dá-se, efectivamente, o pecado mortal também quando o homem, sabendo e
querendo, por qualquer motivo escolhe alguma coisa gravemente
desordenada. Com efeito, numa escolha assim já está incluído um desprezo
do preceito divino, uma rejeição do amor de Deus para com a humanidade e
para com toda a criação: o homem afasta-se a si próprio de Deus e perde
a caridade. A orientação fundamental pode, pois, ser radicalmente
modificada por actos particulares. Podem, sem dúvida, verificar-se
situações muito complexas e obscuras sob o ponto de vista psicológico,
que influem na imputabilidade subjectiva do pecador. Mas da consideração
da esfera psicológica não se pode passar para a constituição de uma
categoria teológica, como é precisamente a da «opção fundamental»,
entendendo-a de tal modo que, no plano objectivo, mudasse ou pusesse em
dúvida a concepção tradicional do pecado mortal.
Se bem que sejam de apreciar todas as tentativas sinceras e prudentes
de esclarecer o mistério psicológico e teológico do pecado, a Igreja
tem no entanto o dever de recordar a todos os estudiosos desta matéria: a
necessidade, por um lado, de serem fiéis à Palavra de Deus, que nos
elucida também sobre o pecado; e, por outro, o risco que se corre de
contribuir para atenuar ainda mais, no mundo contemporâneo, o sentido do
pecado.
Perda do sentido do pecado
18. A partir do Evangelho lido na comunhão eclesial, a consciência
cristã adquiriu, no decurso das gerações, uma fina sensibilidade e uma
perspicaz percepção dos fermentos de morte que estão contidos no
pecado; sensibilidade e capacidade de percepção, também para individuar
tais fermentos nas mil formas assumidas pelo pecado, nos mil carizes com
que ele se apresenta. É a isto que se costuma chamar o sentido do pecado.
Este sentido tem a sua raiz na consciência moral do homem e é como que o seu termómetro. Anda ligado ao sentido de Deus,
uma vez que deriva da consciência da relação que o homem tem com o
mesmo Deus, como seu Criador, Senhor e Pai. E assim como não se pode
apagar completamente o sentido de Deus nem extinguir a consciência,
também não se dissipa nunca inteiramente o sentido do pecado.
Entretanto, não raro no decurso da história, por períodos mais ou
menos longos e sob o influxo de múltiplos factores, acontece ficar
gravemente obscurecida a consciência moral em muitos homens. «Temos nós
uma ideia justa da consciência?» - perguntava eu há dois anos num
colóquio com os fiéis - «Não vive o homem contemporâneo sob a ameaça de
um eclipse da consciência, de uma deformação da consciência e de um
entorpecimento ou duma "anestesia" das consciências?». (97)
Demasiados sinais indicam que no nosso tempo existe tal eclipse, tanto
mais inquietante quanto esta consciência, definida pelo Concílio como «o
núcleo mais secreto e o sacrário do homem», (98) anda «estreitamente ligada à liberdade
do homem (...). Por isso, a consciência, com relevância principal, está
na base da dignidade interior do homem e ao mesmo tempo, da sua relação
com Deus». (99) é inevitável, portanto, que nesta situação fique obnubilado também o sentido do pecado,
o qual está intimamente ligado à consciência moral, à procura da
verdade e à vontade de fazer um uso responsável da liberdade.
Conjuntamente com a consciência, fica também obscurecido o sentido de Deus,
e então, perdido este decisivo ponto de referência interior, desaparece
o sentido do pecado. Foi este o motivo por que o meu Predecessor Pio
XII, com palavras que se tornaram quase proverbiais, pôde declarar um
dia que «o pecado do século é a perda do sentido do pecado». (100)
Porquê este fenómeno no nosso tempo? Uma vista de olhos de algumas
componentes da cultura contemporânea pode ajudar-nos a compreender a
atenuação progressiva do sentido do pecado, exactamente por causa da
crise da consciência e do sentido de Deus, acima realçada.
O «secularismo», que, pela sua própria natureza e definição, é um
movimento de ideias e de costumes, o qual propugna um humanismo que
abstrai de Deus totalmente, concentrado só no culto do empreender e do
produzir e arrastado pela embriaguez do consumo e do prazer, sem
preocupações com o perigo de «perder a própria alma», não pode deixar de
minar o sentido do pecado. Reduzir-se-á este último, quando muito,
àquilo que ofende o homem. Mas é precisamente aqui que se impõe a amarga
experiência a que já aludia na minha primeira Encíclica; ou seja, que o
homem pode construir um mundo sem Deus, mas esse mundo acabará por
voltar-se contra o mesmo homem. (101) Na realidade, Deus é a origem e o fim supremo do homem e este leva consigo um gérmen divino. (102)
Por isso, é a realidade de Deus, que desvenda e ilumina o mistério do
homem. É inútil, pois, esperar que ganhe consistência um sentido do
pecado, no que respeita ao homem e aos valores humanos, quando falta o
sentido da ofensa cometida contra Deus, isto é, o verdadeiro sentido do
pecado.
Desvanece-se este sentido do pecado na sociedade contemporânea também
pelos equívocos em que se cai ao apreender certos resultados das
ciências humanas. Com base nalgumas afirmações da psicologia, a
preocupação de não tachar alguém como culpado nem pôr freio à liberdade
leva a nunca reconhecer uma falta. Por indevida extrapolação dos
critérios da ciência sociológica acaba-se — como já aludi — por
descarregar sobre a sociedade todas as culpas, de que o indivíduo é
declarado inocente. E uma certa antropologia cultural, por seu lado, à
força de aumentar os condicionamentos e influxos ambientais e
históricos, aliás inegáveis, que agem sobre o homem, limita-lhe tanto a
responsabilidade que não lhe reconhece já a capacidade de fazer
verdadeiros actos humanos e, por consequência, a possibilidade de pecar.
O sentido do pecado decai facilmente, ainda, sob a influência de uma
ética que deriva dum certo relativismo historicista. Pode tratar-se da
ética que relativiza a norma moral, negando o seu valor absoluto e
incondicionado e negando, por consequência, que possam existir actos
intrinsecamente ilícitos, independentemente das circunstâncias em que
são realizados pelo sujeito. Trata-se de uma verdadeira «reviravolta e
derrocada dos valores morais»; e «o problema não é tanto de ignorância
da ética cristã», «mas sobretudo do sentido dos fundamentos e critérios
das atitudes morais». (103)
O efeito desta reviravolta ética é sempre também o de mitigar a tal
ponto a noção de pecado, que se acaba quase por afirmar que o pecado
existe, mas não se sabe quem o comete.
Esvai-se, por fim, o sentido do pecado quando — como pode acontecer
no ensino aos jovens, nas comunicações de massa e na própria educação
famíliar — esse sentido do pecado é erroneamente identificado com o
sentimento morboso da culpa ou com a simples transgressão das normas e
preceitos legais.
A perda do sentido do pecado, portanto, é uma forma ou um fruto da negação de Deus:
não só da negação ateísta, mas também da negação secularista. Se o
pecado é a interrupção da relação filial com Deus para levar a própria
existência fora da obediência a ele devida, então pecar não é só negar
Deus; pecar é também viver como se ele não existisse, bani-lo do próprio
quotidiano. Um modelo de sociedade mutilado ou desequilibrado num ou
noutro sentido, como é frequentemente veiculado pelos meios de
comunicação, favorece bastante a progressiva perda do sentido do pecado.
Em tal situação, o ofuscamento ou a debilitação do sentido do pecado
resulta: seja da recusa de qualquer referência ao transcendente, em nome
da aspiração à autonomia pessoal; seja da sujeição a modelos éticos
impostos pelo consenso e costume generalizado, mesmo quando são
condenados pela consciência individual; seja das dramáticas condições
sócio-económicas, que oprimem grande parte da humanidade, causando a
tendência para se verem erros e culpas apenas no âmbito do social; seja,
por fim e sobretudo, do obscurecimento da ideia da paternidade de Deus e
do seu domínio sobre a vida do homem.
Até mesmo no campo do pensamento e da vida eclesial, algumas
tendências favorecem inevitavelmente o declínio do sentido do pecado.
Alguns, por exemplo, tendem a substituir posições exageradas do passado
por outros exageros; assim, da atitude de ver o pecado em toda a parte,
passa-se a não o vislumbrar em lado nenhum; da demasiada acentuação do
temor das penas eternas, à pregação dum amor de Deus, que excluiria toda
e qualquer pena merecida pelo pecado; da severidade no esforço para
corrigir as consciências erróneas, a um pretenso respeito pela
consciência, até suprimir o dever de dizer a verdade. E por que não
acrescentar que a confusão criada na consciência de muitos fiéis
pelas divergências de opiniões e de ensinamentos na teologia, na
pregação, na catequese e na direcção espiritual, acerca de questões graves e delicadas da moral cristã,
acaba por fazer diminuir, quase até à sua extinção, o verdadeiro
sentido do pecado? E não podem deixar-se em silêncio alguns defeitos na
prática da Penitência sacramental: tal é a tendência a ofuscar o
significado eclesial do pecado e da conversão, reduzindo-os a factos
meramente individuais, ou vice-versa, a anular o valor pessoal do bem e
do mal para considerar nestes exclusivamente a dimensão comunitária; tal
é também o perigo, que nunca foi totalmente esconjurado, do ritualismo
rotineiro, que tira ao Sacramento o seu significado pleno e a sua
eficácia formativa.
Restabelecer o justo sentido do pecado é a primeira forma de
combater a grave crise espiritual que impende sobre o homem do nosso
tempo. Mas o sentido do pecado só se restabelecerá com uma chamada a atenção clara para os inderrogáveis princípios de razão e de fé, que a doutrina moral da Igreja sempre sustentou.
É lícito esperar que, sobretudo no mundo cristão eclesial, reaflore
um salutar sentido do pecado. A isso levarão uma boa catequese,
iluminada pela teologia bíblica da Aliança, a escuta atenta e o
acolhimento confiante do Magistério da Igreja, que não cessa de
proporcionar luz as consciências, e uma prática cada vez mais cuidada do
Sacramento da Penitência.
CAPÍTULO SEGUNDO
«MYSTERIUM PIETATIS»
19. Para conhecer o pecado, era necessário fixarmos o olhar na sua
natureza, tal como a revelação da economia da Salvação no-la deu a
conhecer: ele é o mistério da iniquidade («mysterium
iniquitatis»). Mas nesta economia o pecado não é protagonista nem, menos
ainda, vencedor. Contrasta, antes, como antagonista, com um outro
princípio operante, que — usando uma bela e sugestiva expressão de São
Paulo — podemos chamar o mistério ou sacramento da piedade
(«mysterium», ou «sacramentum pietatis»). O pecado do homem seria
vencedor e, por fim, destruidor, e o desígnio salvífico de Deus ficaria
incompleto ou mesmo vencido, se este mistério da piedade não se tivesse inserido no dinamismo da história para vencer o pecado do homem.
Encontramos esta expressão numa das Cartas Pastorais de São Paulo, a primeira a Timóteo.
Aparece aí, repentina, como por uma inspiração impetuosa! O Apóstolo,
na verdade, consagrara em precedência longos parágrafos da sua mensagem
ao discípulo predilecto, para explicar o significado da organização da
comunidade (litúrgica e, ligada a esta, hierárquica); falara depois do
papel dos chefes da comunidade, para se referir em seguida ao
comportamento do próprio Timóteo na «Igreja do Deus vivo, coluna e
sustentáculo da verdade». E depois, no final da passagem, evoca quase ex abrupto, mas com intuito profundo, aquilo que dá significado a tudo o que escrevera: «é grande, sem dúvida, o mistério da piedade...». (104)
Sem trair minimamente o sentido literal do texto, podemos alargar
esta magnífica intuição teológica do Apóstolo a uma visão mais completa
do papel que a verdade por ele anunciada tem na economia da Salvação. «é
verdadeiramente grande — repitamos com o mesmo Apóstolo — o mistério da
piedade», porque vence o pecado.
Mas o que é, na concepção paulina, esta «piedade»?
É o próprio Cristo
20. É profundamente significativo que, para apresentar este «mistério
da piedade», São Paulo transcreva simplesmente, sem estabelecer uma
ligação gramatical com o texto precedente, (105) três linhas de um Hino cristológico, que — segundo a opinião de autorizados estudiosos — era usado nas comunidades helénico-cristãs.
Com as palavras desse Hino, densas de conteúdo teológico e ricas de
nobre beleza, esses cristãos do século primeiro professavam a sua fé no
mistério de Cristo, pelo qual
- Ele se manifestou na realidade da carne humana e foi pelo Espírito
Santo constituído como o Justo, que se oferece pelos injustos;
- Ele apareceu aos Anjos, tornado maior que eles, e foi pregado aos povos, como portador de salvação;
- Ele foi acreditado no mundo, como enviado do Pai, e pelo mesmo Pai assumido no céu, como Senhor. (106)
- O mistério ou sacramento da piedade, portanto, é o próprio
mistério de Cristo, E, numa síntese bem densa, ele é o mistério da
Encarnação e da Redenção, da plena Páscoa de Jesus, Filho de Deus e
Filho de Maria: mistério da sua paixão e morte, da sua ressurreição e
glorificação. O que São Paulo, ao referir as frases do Hino, quis
recordar foi que este mistério é o recôndito princípio vital que
faz da Igreja a casa de Deus, a coluna e o fundamento da verdade. E na
peugada do ensino paulino, nós podemos afirmar que este mesmo mistério da infinita piedade de Deus para connosco
é capaz de penetrar até as raízes escondidas da nossa iniquidade, para
suscitar na alma um movimento de conversão, para redimi-la, e fazê-la de
vela em direcção à reconciliação.
Referindo-se sem dúvida a este mistério, também São João, com a sua
linguagem característica, que é diversa da de São Paulo, pôde escrever
que «aquele que nasceu de Deus, não peca»: o Filho de Deus salva-o e «o
Maligno não o toca». (107)
Nesta afirmação joanina há uma indicação de esperança, fundada sobre as
promessas divinas: o cristão recebeu a garantia e as forças necessárias
para não pecar. Não se trata, pois, de uma impecabilidade adquirida por
virtude própria e, menos ainda, ínsita no homem, como pensavam os
Gnósticos. É um resultado da acção de Deus. Para não pecar, o cristão
dispõe do conhecimento de Deus, recorda São João nesta passagem. Mas,
pouco antes, já tinha escrito: «Todo o que nasceu de Deus não comete
pecado, porque habita nele uma semente divina». (108)
Se por esta «semente de Deus» entendermos — como propõem alguns
comentadores — Jesus, o Filho de Deus, então podemos dizer que para não
pecar — ou para libertar-se do pecado — o cristão dispõe da presença em
si do próprio Cristo e do mistério de Cristo, que é mistério de piedade.
O esforço do cristão
21. Mas há no mistério da piedade um outro aspecto: à piedade de Deus para com o cristão há-de corresponder a piedade do cristão para com Deus. Nesta segunda acepção, a piedade (eusébeia) significa exactamente o comportamento do cristão, que à piedade paterna de Deus corresponde com a sua piedade filial.
Também neste sentido podemos afirmar com São Paulo que «é grande o mistério da piedade»; e ainda, que esta piedade,
qual força de conversão e de reconciliação, combate a iniquidade e o
pecado. Neste caso, ainda, os aspectos essenciais do mistério de Cristo
são objecto da piedade, enquanto o cristão acolhe o mistério, o
contempla e a ele vai buscar a força espiritual necessária para modelar a
sua vida segundo o Evangelho. Também aqui se deve dizer que «quem
nasceu de Deus não comete pecado»; mas a expressão tem sentido
imperativo: sustentado pelo mistério — e pelos mistérios — de Cristo,
como por uma nascente interior de energia espiritual, o cristão é
avisado para não pecar e, mais ainda, recebe o mandamento de não pecar:
há-de comportar-se dignamente «na casa de Deus, que é a Igreja do Deus
vivo», (109) sendo como é um filho de Deus.
Para una vida reconciliada
22. Assim a Palavra da Escritura, ao revelar-nos o mistério da piedade,
abre a inteligência humana para a conversão e para a reconciliação,
entendidas não como abstracções, mas como valores cristãos concretos a
conquistar no dia a dia.
Insidiados pela perda do sentido do pecado, tentados, algumas vezes,
pela ilusão bem pouco cristã de impecabilidade, também os homens de hoje
precisam de ouvir de novo, como dirigida a cada um deles, pessoalmente,
a advertência de São João: «Se dissermos que não temos pecado,
enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós»; (110) e mais ainda, que «todo o mundo jaz sob o jugo do Maligno». (111)
Cada um, pois, é convidado pela voz da Verdade divina a ler
realisticamente na própria consciência e a confessar que foi gerado na
iniquidade, como dizemos no Salmo Miserere. (112)
Ameaçados pelo medo e pelo desespero, os homens de hoje podem, no
entanto, sentir-se consolados pela promessa divina, que os abre à
esperança da plena reconciliação.
O mistério da piedade, da parte de Deus, é a misericórdia de que o
Senhor e nosso Pai — repito-o mais uma vez — é infinitamente rico. (113) Como disse na Encíclica dedicada ao tema da misericórdia divina, (114) esta é um amor mais poderoso do que o pecado, mais forte do que a morte.
Quando nos damos conta de que o amor que Deus nos dispensa não se detém
diante do nosso pecado, não retrocede diante das nossas ofensas, mas se
torna ainda mais solícito e generoso; quando nos apercebemos de que
este amor chegou a causar a paixão e a morte do Verbo feito carne, que
aceitou remir-nos pagando com o seu Sangue, então prorrompemos em
reconhecimento: «Sim, o Senhor é rico em misericórdia», e dizemos mesmo:
«O Senhor é misericórdia».
O mistério da piedade é o caminho aberto pela misericórdia divina à vida reconciliada.
TERCEIRA PARTE
A PASTORAL DA PENITÊNCIA
E DA RECONCILIAÇÃO
Promoção da penitência e da reconciliação
23. Suscitar no coração do homem a conversão e a penitência e
proporcionar-lhe o dom da reconciliação é a missão conatural da Igreja,
como continuadora da obra redentora do seu divino Fundador. Trata-se de
uma missão que não será cumprida só com algumas afirmações teóricas e
com a proposta de um ideal ético não acompanhado por energias
operativas; mas está destinada a expressar-se em funções ministeriais
bem precisas, em ordem à prática concreta da penitência e da
reconciliação.
A este ministério, fundado e iluminado pelos princípios de fé acima
ilustrados, orientado para objectivos precisos e apoiado em meios
adequados, podemos dar o nome de pastoral da penitência e da reconciliação.
O seu ponto de partida é a convicção da Igreja, de que o homem, a quem
se destinam todas as formas de pastoral, mas principalmente a pastoral
da penitência e da reconciliação, é o homem marcado pelo pecado,
retratado no exemplo significativo do rei David. Repreendido pelo
profeta Natan, David aceita olhar de frente as suas próprias torpezas,
confessando: «Pequei contra o Senhor». (115) E proclama: «Reconheço os meus pecados, tenho sempre diante de mim as minhas culpas». (116) Mas também suplica: «Purificai-me, Senhor, e ficarei limpo; lavai-me e ficarei mais branco do que a neve»; (117) e recebe a resposta da misericórdia divina: «O Senhor perdoou o teu pecado, não morrerás». (118)
A Igreja encontra-se, pois, diante do homem — de todo um mundo humano
— ferido pelo pecado e por ele atingido naquilo que tem de mais íntimo,
na profundidade do seu ser; mas, ao mesmo tempo, movido interiormente
por um incontível desejo de libertação do pecado e também, especialmente
se for cristão, consciente de que o mistério da piedade, Cristo Senhor, já está a actuar nele e no mundo com a força da Redenção.
A função reconciliadora da Igreja deve desenvolver-se, pois, segundo
aquele nexo íntimo que cônjunge estreitamente o perdão e a remissão dos
pecados de cada homem com a reconciliação plena e fundamental da
humanidade, que foi realizada pela Redenção. Este nexo leva-nos a
compreender que, sendo o pecado o princípio activo da divisão — divisão
entre o homem e o Criador, divisão no coração e no ser do homem, divisão
entre os indivíduos e entre os grupos humanos, divisão entre o homem e a
natureza criada por Deus — só a conversão do pecado é capaz de operar
uma reconciliação profunda e duradoura onde quer que a divisão tenha
penetrado.
Não é necessário repetir tudo o que já disse a respeito da importância deste ministério da reconciliação (119)
e da correspondente pastoral que o põe em prática na consciência e na
vida da Igreja. Esta, de facto, falharia num aspecto essencial do seu
ser e deixaria por realizar uma sua função inabdicável, se não
apregoasse, com clareza e firmeza, a tempo e fora de tempo, a «palavra
da reconciliação» (120)
e não proporcionasse ao mundo o dom da reconciliação. Mas, convém
repeti-lo, a importância do serviço eclesial da reconciliação estende-se
para além das fronteiras visíveis da Igreja, ao mundo inteiro.
Falar de pastoral da penitência e da reconciliação, portanto,
equivale a referir-se ao conjunto das tarefas de que a Igreja está
incumbida, a todos os níveis, para a promoção de uma e outra. Mais
concretamente, falar desta pastoral significa recordar todas as
actividades práticas, mediante as quais a Igreja, em todas e cada uma
das suas componentes — Pastores e fiéis, a todos os níveis e em todos os
campos — e com todos os meios à sua disposição — palavra e acção,
ensino e oração — procura levar os homens, individualmente ou em grupo, à
verdadeira penitência e introduzi-los assim no caminho da plena
reconciliação.
Os Padres do Sínodo, como representantes dos seus Irmãos Bispos,
guias do povo que lhes está confiado, debruçaram-se sobre esta pastoral
nos seus elementos mais práticos e concretos. E é para mim motivo de
alegria fazer-me eco deles, associando-me as suas inquietudes e
esperanças, acolhendo os frutos dos seus esforços de procura e
experiências e encorajando-os nos seus planos e realizações. Que eles
possam encontrar nesta parte da Exortação Apostólica a contribuição que
deram para o Sínodo, cuja utilidade desejaria tornar extensiva, mediante
estas páginas, à Igreja inteira.
Desejaria, pois, pôr em evidência o essencial da pastoral da penitência e da reconciliação, salientando nela, com a Assembleia do Sínodo, os dois pontos seguintes:
- Os meios usados e as vias seguidas pela Igreja para promover a penitência e a reconciliação,
- O Sacramento por excelência da penitência e da reconciliação.
CAPÍTULO PRIMEIRO
MEIOS E VIAS PARA A PROMOÇÃO
DA PENITÊNCIA E DA RECONCILIAÇÃO
24. Para promover a penitência e a reconciliação, a Igreja tem ao seu
dispor dois meios, principalmente, que lhe foram confiados pelo seu
próprio Fundador: a catequese e os Sacramentos. A utilização destes
meios, considerada sempre pela Igreja plenamente conforme as exigências
da sua missão salvífica e igualmente susceptível de corresponder as
exigências e necessidades espirituais dos homens de todos os tempos,
pode ser levada a efeito seguindo formas e modos antigos e novos, entre
os quais será bom recordar, especialmente, o que, em continuidade com o
meu Predecessor Paulo VI, podemos designar por método do diálogo.
O Diálogo
25. O diálogo é para a Igreja, em certo sentido, um meio e sobretudo um modo de desenvolver a sua acção no mundo contemporâneo.
De facto, o Concílio Vaticano II, depois de ter proclamado que «a
Igreja, em virtude da missão que tem de iluminar todo o mundo com a
mensagem evangélica e reunir num só Espírito todos os homens (...),
torna-se sinal daquela fraternidade que permite e robustece um diálogo
sincero», acrescenta que a mesma Igreja deve ser capaz de «estabelecer
um diálogo cada vez mais frutuoso entre todos os que constituem o único
Povo de Deus», (121) assim como de «estabelecer um diálogo com a sociedade humana». (122)
O meu Predecessor Paulo VI dedicou ao diálogo uma parte notável da sua primeira Encíclica Ecclesiam Suam, na qual o descreve e caracteriza significativamente como diálogo da salvação. (123)
Na verdade, a Igreja usa o método do diálogo para melhor conduzir os
homens — aqueles que pelo Baptismo e a profissão de fé se reconhecem
membros da comunidade cristã e aqueles que lhe são estranhos — à
conversão e à penitência, pelos caminhos de uma profunda renovação da
própria consciência e da própria vida à luz do mistério da Redenção e da
Salvação, realizadas por Cristo e confiadas ao ministério da sua
Igreja. O diálogo autêntico, por conseguinte, tem em vista, antes de
mais, a regeneração de cada um, mediante a conversão interior e a
penitência, sempre com profundo respeito pelas consciências e com a
paciência e o processo gradual requeridos pelas condições dos homens do
nosso tempo.
O diálogo pastoral, em vista da reconciliação, continua a ser hoje
uma solicitude fundamental da Igreja em diversos âmbitos e a vários
níveis.
Antes de mais, a Igreja promove um diálogo ecuménico, ou seja,
um diálogo entre Igrejas e Comunidades eclesiais que se atêm à fé em
Cristo, Filho de Deus e único Salvador, e um diálogo com as outras
comunidades de homens que buscam a Deus e desejam estabelecer uma
relação de comunhão com Ele.
Como base desse diálogo com as outras Igrejas e Comunidades eclesiais
e com as outras religiões, e como condição da sua credibilidade e
eficácia, deve haver um sincero esforço de diálogo permanente e renovado
no interior da própria Igreja católica. Esta tem a consciência de ser,
por natureza, sacramento da comunhão universal de caridade; (124) mas também sabe que existem no seu seio tensões que correm o risco de se transformar em factores de divisão.
A exortação dorida e firme, feita a seu tempo pelo meu Predecessor, com vista ao Ano Santo de 1975, (125)
continua válida ainda no momento actual. Para se obter a superação dos
conflitos e fazer com que as normais tensões não resultem nocivas para a
unidade da Igreja, é preciso que todos nos confrontemos com a Palavra
de Deus e, postas de parte as próprias maneiras de ver subjectivas,
procuremos a verdade onde ela se encontra, ou seja, na mesma Palavra
divina e na interpretação autêntica que dela nos dá o Magistério da
Igreja. Sob esta luz, a escuta recíproca, o respeito e a abstenção de
todo o juízo apressado, a paciência, a capacidade de evitar que a fé,
que une, seja subordinada as opiniões, as modas e as opções ideológicas,
que dividem, são outras tantas qualidades de um diálogo que, no
interior da Igreja, deve ser assíduo, cheio de boa vontade e sincero. E é
claro que não o seria, nem se tornaria num factor de reconciliação, sem
a atenção ao Magistério e a aceitação do mesmo.
Aplicada deste modo, efectivamente, na busca da sua própria comunhão
interna, a Igreja católica pode dirigir o apelo à reconciliação - como
de há tempos já vem fazendo - as outras Igrejas com as quais não se
verifica plena comunhão, bem como as outras religiões e até mesmo a quem
simplesmente procura Deus com coração sincero.
À luz do Concílio e do Magistério dos meus Predecessores, cuja
preciosa herança recebi e me esforço por conservar e pôr em actuação,
posso afirmar que a Igreja católica, com todas as suas componentes, se
empenha com lealdade no diálogo ecuménico, sem optimismos fáceis, mas
também sem desalento e sem hesitações ou perdas de tempo. As regras
fundamentais que ela procura seguir nesse diálogo são: por um lado, a
persuasão de que somente um ecumenismo espiritual — ou seja, fundado na
oração comum e na comum docilidade ao único Senhor — permitirá
corresponder sincera e seriamente as outras exigências da acção
ecuménica; (126)
e, por outro lado, a convicção de que um certo irenismo em matéria
doutrinal e sobretudo dogmática, poderia talvez levar a um a forma de
convivência superficial e não duradoura, mas nunca àquela comunhão
profunda e estável que todos desejamos. Chegar-se-á a esta comunhão, no
momento em que a divina Providência quiser; mas para se chegar lá, a
Igreja católica, pelo que lhe diz respeito, sabe que deve estar aberta e
sensível a todos «os valores verdadeiramente cristãos, que promanam do
património comum e se encontram também entre os irmãos de nós
separados»; (127)
mas sabe igualmente que deve colocar na base de um diálogo leal e
construtivo a clareza na posição dos problemas, a fidelidade e a
coerência com a fé transmitida e definida na esteira da tradição perene
pelo seu Magistério. Apesar da ameaça dum aparente derrotismo e malgrado
a inevitável lentidão que a inconsideração não poderá nunca corrigir, a
Igreja católica continua a procurar com todos os outros Irmãos cristãos
as vias da unidade, e com os seguidores das outras religiões um diálogo
sincero. Que este diálogo inter-religioso possa fazer chegar pelo menos
à superação das atitudes de hostilidade, de desconfiança, de mútua
condenação e quiçá de mútuas invectivas. Nisto está uma condição
preliminar para que possamos encontrar-nos pelo menos na fé num Deus
único e na certeza da vida eterna para a alma imortal. Que o Senhor
faça, em particular, com que o diálogo ecuménico leve a uma sincera
reconciliação centralizada em tudo aquilo que já possamos ter em comum
com as outras Igrejas cristãs: a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus feito
homem, Salvador e Senhor, a escuta da Palavra, o estudo da Revelação e o
sacramento da Baptismo.
Na medida em que a Igreja for capaz de suscitar a concórdia activa — a
unidade na variedade — no seu próprio interior e de se apresentar como
testemunha e humilde artífice de reconciliação nas relações com as
outras Igrejas e Comunidades eclesiais e com as outras religiões, ela
tornar-se-á, segundo a expressiva definição de Santo Agostinho, «mundo reconciliado». (128) E então poderá ser sinal de reconciliação no mundo e para o mundo.
Com a consciência da imensa gravidade da situação criada pelas forças
da divisão e da guerra, que constitui hoje uma séria ameaça, não só
para o equilíbrio e a harmonia das Nações, mas também para a própria
sobrevivência da humanidade, a Igreja sente-se no dever de oferecer e
propor a sua colaboração específica para a superação dos conflitos e
para o restabelecimento da concórdia.
Trata-se de um complexo e delicado diálogo de reconciliação, no qual a
Igreja está empenhada, antes de mais, mediante a actividade da Santa Sé e dos seus diversos Organismos.
A Santa Sé esforça-se quer por intervir junto dos governantes das
Nações e dos responsáveis das várias Instituições internacionais, quer
por associar-se a eles, dialogando com eles ou estimulando-os a um
diálogo entre si, em favor da reconciliação no meio dos numerosos
conflitos. E faz isto não com segundos fins ou interesses ocultos — dado
que os não tem — mas «por uma preocupação humanitária», (129)
pondo a sua estrutura institucional e a sua autoridade moral,
absolutamente singulares, ao serviço da concórdia e da paz. Fá-lo na
convicção de que, assim como «na guerra há duas facções que se levantam
uma contra a outra», assim também «na questão da paz há sempre duas
partes que necessariamente devem saber empenhar-se»; e nisto «se
encontra o verdadeiro sentido do diálogo para a paz». (130)
No diálogo em favor da reconciliação, a Igreja também se empenha por
intermédio dos Bispos, com a competência e a responsabilidade que lhes é
própria, quer individualmente na orientação das respectivas Igrejas
particulares, quer reunidos nas Conferências Episcopais, com a
colaboração dos Presbíteros e de todas as componentes das Comunidades
cristãs. Eles desempenham regularmente essas suas tarefas, quando
promovem o diálogo que é indispensável e proclamam as exigências humanas
e cristãs de reconciliação e de paz. Em comunhão com os seus Pastores,
os leigos, que têm como «campo próprio da sua actividade evangelizadora o
mundo vasto e complicado da politica, da realidade social e da economia
(...), da vida internacional», (131)
são chamados a empenhar-se directamente no diálogo ou em favor do
diálogo para a reconciliação. Por intermédio deles, é ainda a Igreja que
desenvolve a sua acção reconciliadora.
Na regeneração dos corações, mediante a conversão e a penitência,
portanto, está o pressuposto fundamental e a base segura para toda e
qualquer renovação social e para a paz entre as Nações.
Há que relembrar, por fim, que da parte da Igreja e dos seus membros,
o diálogo, seja qual for a forma sob a qual ele se desenrole — e
existem e podem existir formas muito diversas, pois o próprio conceito
de diálogo tem valor analógico — não poderá nunca partir de uma atitude
de indiferença em relação à verdade; mas tem de ser, sobretudo, uma
apresentação da verdade, feita serenamente e com respeito pela
inteligência e pela consciência dos outros. O diálogo da reconciliação
não poderá nunca substituir ou atenuar o anúncio da verdade evangélica,
que tem como objectivo preciso a conversão, abandonando o pecado, e a
comunhão com Cristo e com a Igreja; mas deverá servir para a sua
transmissão e realização, através dos meios deixados por Cristo à Igreja
para a pastoral da reconciliação: a catequese e a Penitência.
A Catequese
26. Na vasta área em que a Igreja tem a missão de actuar com o instrumento do diálogo, a pastoral da penitência e da reconciliação dirige-se aos membros do corpo da Igreja, primeiro que tudo, por uma adequada catequese
sobre as duas realidades distintas e complementares, as quais os Padres
sinodais deram uma particular importância e que puseram em realce, em
algumas das Propostas («Propositiones») conclusivas: a penitência e a reconciliação, precisamente. A catequese é, pois, o primeiro meio a utilizar.
Na base desta recomendação do Sínodo, tão oportuna, encontra-se um pressuposto fundamental: aquilo que é pastoral não se opõe ao doutrinal,
e a acção pastoral não pode prescindir do conteúdo doutrinal; pelo
contrário, a ele vai buscar a sua substância e a sua validade real. Ora,
se a Igreja é «coluna e sustentáculo da verdade» (132)
e está posta no mundo como Mãe e Mestra, como poderia ela descurar a
tarefa de ensinar a verdade que constitui um caminho de vida?
Dos Pastores da Igreja espera-se, pois, antes de mais, uma catequese sobre a reconciliação.
Esta não pode deixar de fundamentar-se no ensino bíblico, em especial
no do Novo Testamento, sobre a necessidade de reconstituir a aliança com
Deus em Cristo Redentor e Reconciliador; e, à luz desta nova comunhão e
desta nova amizade e no seu prolongamento, sobre a necessidade de
reconciliar-se com o irmão, mesmo à custa de ter de interromper a oferta
do sacrifício. (133)
Jesus insiste muito neste tema da reconciliação fraterna, quando, por
exemplo, convida a oferecer a outra face a quem nos bateu, ou a deixar
também a capa a quem já se apossou da túnica; (134) ou quando inculca a lei do perdão, que cada um recebe na medida em que sabe perdoar, (135) perdão a oferecer também aos inimigos, (136) perdão a conceder setenta vezes sete, (137)
ou seja, na prática, sem limite algum. Com estas condições, que só são
realizáveis num clima genuinamente evangélico, é possível uma verdadeira
reconciliação, quer entre os indivíduos, quer entre as famílias, as
comunidades, as Nações e os povos. Destes dados bíblicos sobre a
reconciliação promanará, naturalmente, uma catequese teológica,
que integrará também na sua síntese os dados da psicologia, da
sociologia e das outras ciências humanas, os quais podem servir para
esclarecer as situações, enquadrar bem os problemas e persuadir os
ouvintes ou leitores a tomarem resoluções concretas.
Dos Pastores da Igreja espera-se, ainda, uma catequese sobre a penitência.
Também aqui a riqueza da mensagem bíblica deve ser a fonte. Esta
mensagem acentua na penitência, primeiro que tudo, o seu valor de conversão, termo com o qual se procura traduzir a palavra do texto grego metánoia, (138) que literalmente significa um reviramento do espírito para o fazer voltar-se
para Deus. São estes, aliás, os dois elementos fundamentais que emergem
da parábola do filho perdido e reencontrado: o «cair em si» (139)
e a decisão de voltar para o pai. Não pode haver reconciliação sem
estas atitudes primordiais de conversão, e a catequese deve explicá-las
com conceitos e expressões adaptados as várias idades e as diversas
condições culturais, morais e sociais.
Trata-se de um primeiro valor da penitência, que se prolonga no
segundo: penitência significa também arrependimento. Os dois sentidos da
metánoia aparecem na significativa norma dada por Jesus: «Se o teu
irmão se arrepender ( = voltar a ti), perdoa-lhe. E se te ofender sete
vezes ao dia e sete vezes voltar a ti, dizendo: "Estou arrependido",
hás-de perdoar-lhe». (140) Uma boa catequese deverá mostrar que o arrependimento, assim como a conversão, bem longe de ser um sentimento superficial, é uma verdadeira reviravolta da alma.
Um terceiro valor está contido ainda na penitência; trata-se do
movimento pelo qual as anteriores atitudes de conversão e arrependimento
se manifestam externamente: é o fazer penitência. Este significado é bem perceptível no termo metánoia, como é usado pelo Precursor, segundo o texto dos Sinópticos. (141) Fazer penitência
quer dizer, além do mais, restabelecer o equilíbrio e a harmonia
alterados pelo pecado, mudar de direcção mesmo à custa de sacrifícios.
Em suma, uma catequese sobre a penitência, o mais completa e adequada
possível, é impreterível, num tempo como o nosso, em que as atitudes
dominantes na psicologia e nos comportamentos sociais contrastam
abertamente com o tríplice valor que foi ilustrado: mais do que nunca, o
homem contemporâneo parece encontrar dificuldade em reconhecer os seus
próprios erros e em decidir voltar atrás para retomar o caminho exacto,
fazendo uma rectificação de marcha; parece experimentar grande
relutância em dizer: «arrependo-me» ou «tenho muita pena»; parece
recusar instintivamente, e muitas vezes irresistivelmente, tudo aquilo
que é penitência, no sentido do sacrifício aceito e praticado para se
corrigir do pecado. A este respeito, desejo sublinhar que, embora
mitigada de há algum tempo a esta parte, a disciplina penitencial da Igreja
não pode ser abandonada sem grave prejuízo, quer para a vida interior
dos cristãos e da comunidade eclesial, quer para a sua capacidade de
irradiação missionária. Não é raro que alguns não-cristãos fiquem
surpreendidos com o fraco testemunho de verdadeira penitência da parte
dos discípulos de Cristo. É claro, de resto, que a penitência cristã
será autêntica, se for inspirada pelo amor, e não pelo mero temor; se
consistir num sério esforço para crucificar o «homem velho», a fim de
que possa renascer o «novo», por obra de Cristo; se seguir como modelo o
mesmo Cristo, que, embora fosse inocente, escolheu o caminho da
pobreza, da paciência, da austeridade e, pode dizer-se, da vida
penitente.
Dos Pastores da Igreja espera-se ainda — como recordou o Sínodo — uma catequese sobre a consciência e a sua formação.
É um tema de viva actualidade, também este, visto que, no meio dos
abalos a que está sujeita a cultura do nosso tempo, com muita frequência
é agredido, posto à prova, perturbado e obscurecido esse santuário
interior, ou seja, o eu mais íntimo do homem: a sua consciência. Para
uma catequese sapiente sobre a consciência podem encontrar-se indicações
preciosas, quer nos Doutores da Igreja, quer na teologia do Concílio
Vaticano II e, especialmente, em dois dos seus Documentos: sobre a
Igreja no Mundo Contemporâneo (143)
e sobre a Liberdade Religiosa. (143) Nesta mesma linha, o Sumo
Pontífice Paulo VI pronunciou-se muitas vezes, para recordar a natureza e
o papel da consciência na nossa vida. (144)
Eu próprio, seguindo as suas pegadas, não deixo passar ocasião alguma
para fazer luz sobre esta altíssima componente da grandeza e dignidade
do homem, (145) sobre esta «espécie de sentido moral, que nos leva a distinguir o bem do mal
(...), como que os olhos da alma, capacidade visual do espírito, em
condições de guiar os nossos passos no caminho do bem; e insisto na
necessidade de «formar cristãmente a própria consciência pessoal», a fim
de esta não se tornar «numa força destruidora da humanidade verdadeira
(da pessoa), mas ser sempre o lugar sagrado onde Deus lhe revela o seu
verdadeiro bem». (146)
Também se espera que a catequese dos Pastores da Igreja incida sobre
outros pontos, de não menor relevância para a reconciliação:
- Sobre o sentido do pecado, que — como disse — não pouco se tem vindo a atenuar no nosso mundo.
- Sobre a tentação e as tentações: o próprio Senhor Jesus, Filho de Deus, «provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado», (147) quis ser tentado pelo Maligno, (148)
para indicar que, assim como ele, também os seus discípulos seriam
submetidos à tentação; e, ainda, para mostrar como é necessário
comportar-se na tentação. Para quem implora do Pai não ser tentado acima
das próprias forças (149) e não sucumbir à tentação, (150)
para quem não se expõe as ocasiões de pecado, o facto de ser submetido à
tentação não significa ter pecado; mas é, prevalentemente, uma ocasião
para crescer na fidelidade e na coerência, pela humildade e pela
vigilância.
- Sobre o jejum: este pode praticar-se em formas antigas e
novas, como sinal de conversão, de arrependimento e de mortificação
pessoal; e, ao mesmo tempo, sinal de união com Cristo crucificado e de
solidariedade com os que passam fome e que sofrem.
- Sobre a esmola: trata-se de um meio para tornar efectiva a
caridade, partilhando aquilo que se possui com aqueles que sofrem as
consequências da pobreza.
- Sobre o nexo íntimo que concatena a superação das divisões
no mundo com a comunhão plena com Deus e entre os homens, finalidade
escatológica da Igreja.
- Sobre as circunstâncias concretas em que a reconciliação
(na família, na comunidade civil, nas estruturas sociais) se deve
realizar; e, particularmente, sobre as quatro reconciliações que
consertam as quatro fracturas fundamentais: reconciliação do homem com
Deus, consigo mesmo, com os irmãos e com o mundo criado.
E a Igreja não pode omitir, ainda, sem grave mutilação da sua
mensagem essencial, uma constante catequese sobre as realidades que a
linguagem cristã tradicional designa como os quatro novíssimos do homem:
morte, juízo (particular e universal), inferno e paraíso. Numa cultura
que tende a encerrar o homem nas suas vicissitudes terrestres, mais ou
menos bem sucedidas, aos Pastores da Igreja é solicitada uma catequese
que abra e ilumine, com as certezas da fé, o além da vida presente: para
lá das misteriosas portas da morte, delineia-se uma eternidade de
alegria na comunhão com Deus, ou de pena no afastamento d'Ele. Somente
nesta visão escatológica é possível ter a medida exacta do pecado e
sentir-se resolutamente impelido para a penitência e a reconciliação.
Não faltarão nunca aos Pastores de almas zelosos e dotados de
inventiva as ocasiões para ministrar esta catequese assim, ampla e
variada, tendo em conta a diversidade de cultura e de formação religiosa
daqueles a quem se dirigem. Com frequência, proporcionam essas ocasiões
as próprias leituras bíblicas e os ritos da Santa Missa e dos outros
Sacramentos, bem como as próprias circunstâncias em que estes são
celebrados. Muitos outras iniciativas podem ser tomadas com o mesmo
objectivo, tais como: pregações, palestras, debates, encontros e cursos
de cultura religiosa, etc., o que já sucede em muitas partes. Desejo
aqui assinalar, em especial, a importância e a eficácia, que revestem
para uma tal catequese, as antigas missões populares. Se forem
adaptadas as peculiares exigências do nosso tempo, elas podem ser, hoje
como ontem, um válido instrumento de educação na fé, também pelo que diz
respeito ao sector da penitência e da reconciliação.
Dada a grande importância que tem a reconciliação, fundada sobre a
conversão, no campo delicado da relações humanas e da convivência social
a todos os níveis, incluindo o internacional, não pode faltar à
catequese o precioso contributo da doutrina social da Igreja. O
atento e preciso ensino dos meus Predecessores, a partir do Papa Leão
XIII, ao qual veio unir-se a contribuição substanciosa da Constituição
pastoral Gaudium et Spes
do Concílio Vaticano II e juntar-se a dos vários Episcopados,
solicitados por diversas circunstâncias dos respectivos países,
constitui um vasto e sólido corpo de doutrina a respeito das múltiplas
exigências inerentes à vida da comunidade humana, as relações entre os
indivíduos, famílias e grupos nos seus diversos âmbitos, e à própria
constitução de uma sociedade que queira ser coerente com a lei moral,
que é fundamento da civilização.
Na base deste ensino social da Igreja encontra-se, obviamente, a luz
que ela vai buscar à Palavra de Deus: a respeito dos direitos e deveres
dos indivíduos, da família e da comunidade; a respeito do valor da
liberdade e das dimensões da justiça; a respeito do primado da caridade;
a respeito da dignidade da pessoa humana e das exigências do bem comum,
que deve ser tido em vista pela política e pela própria economia. É
sobre estes princípios fundamentais do magistério social, que confirmam e
reapresentam os ditames universais da razão e da consciência dos povos
que se apoia, em grande parte, a esperança duma solução pacífica de
tantos conflitos sociais e, em definitivo, da reconciliação universal.
Os Sacramentos
27. O segundo meio de instituição divina, que é oferecido pela Igreja
à pastoral da penitência e da reconciliação, é constituído pelos Sacramentos.
No misterioso dinamismo dos Sacramentos, tão rico de simbolismos e de
conteúdos, é possível perceber um aspecto nem sempre posto em realce:
cada um deles, além da sua graça própria, é também sinal de penitência e
reconciliação; e, por isso, em cada um deles, é possível reviver estas
dimensões espirituais.
O Baptismo é, certamente, uma ablução salvífica que — como diz São
Pedro — tem valor «não (como) purificação das impurezas do corpo, mas
pela que consiste em pedir a Deus uma boa consciência». (151) é morte, sepultura e ressurreição com Cristo, morto, sepultado e ressuscitado. (152) é dom do Espírito Santo por intermédio de Cristo. (153)
Mas esta dimensão constitutiva essencial e original do Baptismo, longe
de eliminar, enriquece o elemento penitencial já presente no baptismo
que o próprio Jesus recebeu de João «para se cumprir toda a justiça»: (154)
um facto, portanto, de conversão e reintegração na justa ordem das
relações com Deus, de reconciliação com Deus, com o apagamento da mancha
original e a consequente inserção na grande família dos reconciliados.
Paralelamente, o Crisma, também como confirmação do Baptismo e,
juntamente com ele, como Sacramento de iniciação, ao conferir a
plenitude do Espírito Santo e ao encaminhar a vida cristã à idade
adulta, significa e realiza, por isso exactamente, uma maior conversão
do coração e uma mais íntima e efectiva inserção na assembleia dos
reconciliados, que é a Igreja de Cristo.
A definição que dá Santo Agostinho da Eucaristia, como sacramento de piedade, sinal de unidade e vínculo da caridade («sacramentum pietatis, signum unitatis, vinculum caritatis»), (155) põe em evidência os efeitos de santificação pessoal (piedade) e de reconciliação comunitária (unidade e caridade),
que derivam da própria essência do Mistério eucarístico, como renovação
incruenta do sacrifício da Cruz e fonte de salvação e de reconciliação
para todos os homens. É necessário, todavia, recordar que a Igreja,
guiada pela fé neste augusto Sacramento, ensina que nenhum fiel cristão,
consciente de estar em pecado grave, pode receber a Eucaristia sem ter
obtido antes o perdão de Deus. Assim se lê na Instrução Eucharisticum Mysterium,
a qual, devidamente aprovada pelo Papa Paulo VI, confirma todo o ensino
do Concílio de Trento: «a Eucaristia há-de ser proposta aos fiéis "como
antídoto que nos liberta das culpas de cada dia e nos preserva dos
pecados mortais", e seja-lhes indicada a maneira conveniente para se
utilizarem das partes penitênciais da liturgia da Missa. "A quem quiser
comungar, seja recordado... o preceito: examine-se cada qual a si mesmo (1 Cor
11, 28). E a prática da Igreja demonstra que esse exame é necessário,
para que ninguém, consciente de estar em pecado mortal, por mais
contrito que se julgue, se aproxime da Sagrada Eucaristia antes da
Confissão sacramental". E se alguém vier a encontrar-se em caso de
necessidade e não tiver a possibilidade de se confessar, faça antes (de
comungar) um acto de contrição perfeita». (156)
O Sacramento da Ordem destina-se a dar à Igreja os Pastores, os
quais, além de mestres e guias, são chamados a ser também testemunhas e
operadores de unidade, construtores da família de Deus, defensores e
preservadores da comunhão desta família contra os fermentos de divisão e
de dispersão.
O Sacramento do Matrimónio, exaltação do amor humano sob a acção da
graça, é sinal, sim, do amor de Cristo pela Igreja, mas também da
vitória que Ele concede aos esposos obterem sobre as forças que deformam
e destroem o amor, de tal forma que a família, nascida deste
Sacramento, se torna sinal também da Igreja reconciliada e
reconciliadora, para um mundo reconciliado em todas as suas estruturas e
instituições.
Por fim, a Unção dos Enfermos, na provação da doença e da velhice,
especialmente na hora derradeira do cristão, é sinal da definitiva
conversão ao Senhor, bem como da total aceitação da dor e da morte como
penitência pelos pecados. E nisto actua-se a suprema reconciliação com o
Pai.
Entre os Sacramentos, porém, há um, que, muito embora frequentemente chamado confissão, por motivo da acusação dos pecados que nele se faz, mais propriamente pode considerar-se o Sacramento da Penitência por antonomásia, como de facto se chama; e, por isso, é o Sacramento da conversão e da reconciliação.
Foi deste Sacramento que a recente Assembleia do Sínodo tratou, em
particular, dada a importância que ele tem para a reconciliação.
CAPÍTULO SEGUNDO
O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA
E DA RECONCILIAÇÃO
28. Em todas as fases e a todos os níveis do seu decurso, o Sínodo
considerou com a máxima atenção aquele sinal sacramental que representa e
ao mesmo tempo realiza a penitência e a reconciliação. Este Sacramento
não esgota em si mesmo, certamente, os conceitos de conversão e
reconciliação. A Igreja, de facto, desde as suas origens, conhece e
valoriza numerosas e variadas formas de penitência: algumas litúrgicas
ou paralitúrgicas, que vão do acto penitencial da Missa as funções
propiciatórias e as peregrinações; outras, de carácter ascético, como o
jejum. No entanto, de todos esses actos nenhum é mais significativo,
mais divinamente eficaz e mais elevado e ao mesmo tempo acessível no seu
rito, do que o Sacramento da Penitência.
Desde a sua preparação e, sucessivamente, nas numerosas intervenções
que se sucederam no seu decorrer, nos trabalhos de grupo e nas Propostas
(«Propositiones») finais, o Sínodo teve em conta a afirmação
pronunciada muitas vezes em tons diversos e com diverso conteúdo: o Sacramento da Penitência está em crise;
e desta crise tomou a devida nota. Recomendou uma aprofundada
catequese, mas também, uma não menos aprofundada análise de carácter
teológico, histórico, psicológico, sociológico e jurídico acerca da
penitência em geral e do Sacramento da Penitência em particular. Com
tudo isso teve a intenção de esclarecer os motivos da crise e abrir
caminhos no sentido de uma sua solução positiva, para benefício da
humanidade. Entretanto, do próprio Sínodo a Igreja recebeu uma
confirmação clara da sua fé no que respeita ao Sacramento, pelo qual é
dada a cada cristão e a toda a comunidade dos fiéis a certeza do perdão
graças ao poder do Sangue redentor de Cristo.
É bom renovar e reafirmar esta fé num momento em que poderia
debilitar-se, perder algo da sua integridade ou entrar numa zona de
penumbra e de silêncio, ameaçada como se encontra pela já mencionada
crise, no que ela tem de negativo. Insidiam, de facto, o Sacramento da
Confissão: por um lado, o obscurecimento da consciência moral e
religiosa, a atenuação do sentido do pecado, a adulteração do conceito
do arrependimento, a escassa propensão para uma vida autenticamente
cristã; por outro lado, a mentalidade, as vezes difundida, de que se
poderia obter o perdão directamente de Deus, mesmo de modo ordinário,
sem receber o Sacramento da Reconciliação, bem como a rotina de
uma prática sacramental algumas vezes destituída de verdadeiro fervor e
sem espontaneidade espiritual, originada, talvez, por uma consideração
errada e degenerada dos efeitos do Sacramento.
Convém, portanto, recordar os principais aspectos deste grande Sacramento.
«A quem perdoardes»
29. O primeiro dado fundamental é-nos proporcionado pelos Livros
sagrados do Antigo e do Novo Testamento, no que diz respeito à
misericórdia do Senhor e ao seu perdão. Nos Salmos e na pregação dos
Profetas o nome de misericordioso é talvez o que mais frequentemente se atribui ao Senhor, em oposição ao persistente cliché,
segundo o qual o Deus do Antigo Testamento é apresentado sobretudo como
severo e punidor. Assim, nos Salmos, um longo discurso sapiencial,
remontando à tradição do êxodo, reevoca a acção benigna de Deus no meio
do seu povo. Tal acção, apesar da sua representação antropomórfica, é
talvez uma das mais eloquentes proclamações vetero-testamentárias da
misericórdia divina. Basta aqui recordar o versículo: «E Ele,
misericordioso, perdoava-lhes a falta e não os exterminava; antes,
muitas vezes conteve a sua cólera e não deixou acender-se o seu furor,
recordando que eram simples carne, sopro que se esvai e não volta». (157)
Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus, vindo como o Cordeiro que tira e carrega sobre si o pecado do mundo, (158) aparece como aquele que tem poder, quer de julgar, (159) quer de perdoar os pecados (160) e que veio não para condenar, mas para perdoar e salvar. (161)
Ora este poder de perdoar os pecados Jesus confere-o, mediante o
Espírito Santo, a simples homens, sujeitos também eles próprios à
insídia do pecado, isto é, aos seus Apóstolos: «Recebei o Espírito
Santo: a quem perdoardes os pecados ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a
quem os retiverdes ficar-lhes-ão retidos».(162)
Esta é uma das mais formidáveis novidades evangélicas! Jesus confere
tal poder aos Apóstolos também como transmissível — assim o entendeu a
Igreja desde o seu dealbar — aos seus sucessores, investidos pelos
mesmos Apóstolos na missão e na responsabilidade de continuar a sua obra
de anunciadores do Evangelho e de ministros da obra redentora de
Cristo.
Aqui aparece em toda a sua grandeza a figura do ministro do
Sacramento da Penitência, chamado, por antiquíssimo costume, o
confessor.
Como no altar onde celebra a Eucaristia e como em cada um dos
Sacramentos, o Sacerdote, ministro da Penitência, age «in persona
Christi». O mesmo Cristo, por ele tornado presente e que por meio dele
actua o mistério da remissão dos pecados, é Aquele que aparece como
irmão do homem, (163) pontífice misericordioso, fiel e cheio de compaixão, (164) pastor decidido a procurar a ovelha perdida, (165) médico que cura e conforta, (166) mestre único que ensina a verdade e indica os caminhos de Deus, (167) juiz dos vivos e dos mortos, (168) que julga segundo a verdade e não segundo as aparências. (169)
Trata-se, sem dúvida, do ministério mais difícil e delicado, do mais
cansativo e exigente; mas também de um dos mais belos e consoladores
ministérios do Sacerdote; e, precisamente por isto, atendendo à vigorosa
chamada do Sínodo, nunca me cansarei de pedir aos meus Irmãos, Bispos e
Presbíteros, o seu fiel e diligente desempenho. (170)
Perante a consciência do fiel, que a ele se abre, com um misto de
tremor e de confiança, o confessor é chamado a uma tarefa sublime que é
serviço à causa da penitência e da reconciliação humana: conhecer as
fraquezas e as quedas, de um determinado fiel, avaliar o seu desejo de
recuperação e os esforços para a conseguir, discernir a acção do
Espírito santificador no seu coração, comunicar-lhe o perdão que só Deus
pode conceder, «celebrar» a sua reconciliação com o Pai representada na
parábola do filho pródigo, reinserir esse pecador resgatado na comunhão
eclesial com os irmãos e advertir paternalmente esse penitente com um
firme, encorajador e amigável «doravante não tornes a pecar». (171)
Para o exercício eficaz de tal ministério, o confessor tem de possuir necessariamente qualidades humanas
de prudência, discreção, discernimento e firmeza temperada pela
mansidão e bondade. Deve ter, ainda, séria e cuidada preparação, não
fragmentária mas integral e harmónica, nos diversos ramos da teologia,
na pedagogia e na psicologia, na didáctica catequética, na metodologia
do diálogo e, sobretudo, no conhecimento vivo e comunicativo da Palavra
de Deus. Mas é mais necessário ainda que ele viva uma vida espiritual
intensa e genuína. Para guiar os outros pelos caminhos da perfeição
cristã, o ministro da Penitência deve percorrer, ele próprio, primeiro,
este caminho; e mais com obras do que com palavras exuberantes, dar
mostras de real experiência da oração vivida, de prática das virtudes
evangélicas teologais e morais, de fiel obediência à vontade de Deus, de
amor à Igreja e de docilidade ao seu Magistério.
Todo este aparato de dotes humanos, de virtudes cristãs e de
capacidades pastorais não se improvisa nem se adquire sem esforço. Para o
ministério da Penitência sacramental cada Sacerdote deve ser preparado
desde os anos do Seminário: juntamente com o estudo da teologia
dogmática, moral, espiritual e pastoral (que são sempre uma só
teologia), com as ciências do homem e com a metodologia do diálogo e,
especialmente, do colóquio pastoral. Há-de, ainda, ser iniciado e
amparado nas primeiras experiências. Deverá cuidar sempre do próprio
aperfeiçoamento e actualização, com o estudo permanente. Que tesouros de
graça, de verdadeira vida e de irradiação espiritual não adviriam à
Igreja, se cada Sacerdote se mostrasse cuidadoso em nunca faltar, por
negligência ou desculpas várias, ao encontro com os fiéis no
confessionário e tivesse ainda maior cuidado de nunca aí se sentar sem
preparação, ou sem as indispensáveis qualidades humanas e condições
espirituais e pastorais!
A este propósito não posso deixar de evocar, com devota admiração, as
figuras de extraordinários apóstolos do confessionário, como São João
Nepomuceno, São João Maria Vianney, São José Cafasso e São Leopoldo de
Castelnuovo, para falar só de alguns mais conhecidos, que a Igreja
inscreveu no album dos seus Santos. Mas desejo igualmente prestar
homenagem à inumerável pléiade de confessores santos e quase sempre
anónimos, aos quais se ficou a dever a salvação de tantas almas, por
eles ajudadas na conversão, na luta contra o pecado e as tentações, no
progresso espiritual e, em definitivo, na santificação. Não hesito em
afirmar que os grandes Santos canonizados sairam geralmente desses
confessionários e, com os Santos, o património espiritual da Igreja e o
próprio florescimento de uma civilização impregnada de espírito cristão!
Honra seja, portanto, a este silencioso exército de irmãos nossos, que
bem serviram e servem cada dia a causa da reconciliação, mediante o
ministério da Penitência sacramental!
O Sacramento do Perdão
30. Pela revelação do valor deste ministério e do poder de perdoar os
pecados, conferido por Cristo aos Apóstolos e aos seus sucessores,
desenvolveu-se na Igreja a consciência do sinal do perdão,
concedido mediante o Sacramento da Penitência; ou seja, a certeza, de
que o próprio Senhor Jesus instituíu e confiou à Igreja — qual dom da
sua benignidade e da sua «filantropía», (172) a proporcionar a todos os homens — um especial Sacramento para a remissão dos pecados cometidos depois do Baptismo.
A prática deste Sacramento, pelo que se refere à sua celebração e à
sua forma, conheceu um longo processo de desenvolvimento, como atestam
os mais antigos sacramentários, as actas dos Concílios e dos Sínodos
episcopais, a pregação dos Padres e o ensino dos Doutores da Igreja Mas
quanto à substância do Sacramento, permaneceu sempre sólida e imutável, na consciência da Igreja, a certeza
de que, por vontade de Cristo, o perdão é oferecido a cada um por meio
da absolvição sacramental, dada pelos ministros da Penitência; esta
certeza é reafirmada com particular vigor, quer pelo Concílio de Trento,
(173)
quer pelo Concílio Vaticano II: «Aqueles que se aproximam do Sacramento
da Penitência recebem da misericórdia de Deus o perdão das ofensas que
lhe fizeram e, ao mesmo tempo, reconciliam-se com a Igreja, à qual
infligiram uma ferida com o pecado: a Igreja que coopera na sua
conversão com a caridade, com o exemplo e a oração». (174) E como dado essencial da fé
sobre o valor e a finalidade da Penitência deve reafirmar-se que «o
nosso Salvador Jesus Cristo instituiu na sua Igreja o Sacramento da
Penitência, para que os fiéis caidos no pecado depois do Baptismo
recebessem a graça e se reconciliassem com Deus». (175)
A fé da Igreja neste Sacramento comporta algumas outras verdades
fundamentais, que são ineludíveis. O rito sacramental da Penitência, na
sua evolução e variação de formas práticas, sempre conservou e realçou
claramente essas verdades. O Concílio Vaticano II, ao prescrever a
reforma deste rito, tinha em vista fazer com que ele exprimisse ainda
com mais clareza tais verdades, (176) o que se verificou com o novo Ritual da Penitência. (177)
Este, de facto, assumiu na sua integridade a doutrina da tradição
coligida pelo Concílio de Trento, transferindo-a do seu particular
contexto histórico (o de um esforço corajoso de esclarecimento
doutrinal, defronte aos graves desvios em relação ao genuino ensino da
Igreja) para a traduzir fielmente em termos mais adequados ao contexto
do nosso tempo.
Algumas convicções fundamentais
31. As menciondas verdades, reafirmadas com energia e clareza pelo Sínodo e presentes nas Propostas
(«Propositiones»), podem resumir-se nas convicções de fé, que a seguir
enuncio e à volta das quais se reúnem todas as outras afirmações da
doutrina católica sobre o Sacramento da Penitência.
I. A primeira convicção é que, para um cristão, o Sacramento da Penitência é a via ordinária
para obter o perdão e a remissão dos seus pecados graves cometidos
depois do Baptismo. O divino Salvador e a sua acção salvífica,
certamente, não estão ligados a um sinal sacramental, de maneira a não
poderem em qualquer tempo e circunstância da história da salvação agir
fora e acima dos Sacramentos. Mas na escola da fé aprendemos que o mesmo
Salvador quis e dispôs que os humildes e preciosos Sacramentos da fé
sejam ordinariamente os meios eficazes, pelos quais passa e opera o seu
poder redentor. Seria portanto insensato, além de presunçoso, querer
prescindir arbitrariamente dos instrumentos de graça e de salvação que o
Senhor dispôs e, no caso específico, pretender receber o perdão, pondo
de lado o Sacramento, instituído por Cristo exactamente para o perdão. A
renovação dos ritos, levada a efeito depois do Concílio, não deixa
margem para qualquer confusão ou alteração neste sentido. A mesma
renovação devia e deve servir, segundo a intenção da Igreja, para
suscitar em cada um de nós um novo impulso para a renovação da
nossa atitude interior, ou seja, para a compreensão mais profunda da
natureza do Sacramento da Penitência; para um seu acolhimento mais
repassado de fé, não ansioso mas confiante; para uma maior frequência do
Sacramento, que se apresenta totalmente impregnado pelo amor
misericordioso do Senhor.
II. A segunda convicção diz respeito à função do Sacramento da Penitência para aqueles que a ele recorrem. Segundo a mais antiga concepção da Tradição trata-se de uma espécie de acto judicial;
mas este acto decorre junto de um tribunal mais de misericórdia, do que
de estrita e rigorosa justiça, pelo que não é comparável aos tribunais
humanos, (178)
senão por analogia; ou seja, na medida em que o pecador aí descobre os
seus pecados e a sua própria condição de criatura sujeita ao pecado; se
compromete a renunciar e a combater o pecado; aceita a pena (penitência sacramental) que o confessor lhe impõe e dele recebe a absolvição.
Ao reflectir, porém, sobre a função deste Sacramento, a consciência
da Igreja vislumbra nele, além do carácter judicial, no sentido acima
aludido, um carácter terapêutico ou medicinal. E isto relaciona-se com o facto, frequente no Evangelho, da apresentação de Cristo como médico, (179)
enquanto a sua obra redentora é muitas vezes chamada, desde a
antiguidade cristã, «remédio da salvação» («medicina salutis»). «Eu
quero curar, não acusar», dizia Santo Agostinho, referindo-se ao
exercício da pastoral penitêncial, (180) e é graças ao remédio da confissão que a experiência do pecado não degenera em desespero. (181) O Ritual da Penitência alude a este aspecto medicinal do Sacramento, (182)
ao qual o homem contemporâneo é talvez mais sensível, vendo no pecado o
que ele comporta de erro, obviamente, e mais ainda aquilo que ele
indica relacionado com a fraqueza e enfermidade humanas.
Tribunal de misericórdia ou lugar de cura espiritual, sob ambos os
aspectos o Sacramento exige um conhecimento do íntimo do pecador, para o
poder julgar e absolver, para tratar dele e o curar. E precisamente por
isto, implica, da parte do penitente, a acusação sincera e completa dos
pecados, que tem assim uma razão de ser, não só inspirada em fins
ascéticos (como exercício de humildade e de mortificação), mas inerente à
própria natureza do Sacramento.
III. A terceira convicção que desejo aqui salientar, diz respeito as realidades ou partes que compõem o sinal sacramental do perdão e da reconciliação. Algumas destas realidades são actos do penitente, de importância diversa, mas cada um deles indispensável ou para a validade ou para a integridade ou para o fruto do sinal.
Uma condição indispensável, primeiro que tudo, é a rectidão e a limpidez da consciência do penitente.
Um homem não se põe a caminho para uma verdadeira e genuína penitência,
enquanto não perceber que o pecado contrasta com a norma ética,
inscrita no íntimo do próprio ser; (183)
enquanto não reconhecer ter feito a experiência pessoal e responsável
de uma tal oposição; enquanto não disser não apenas «o pecado existe»,
mas «eu pequei»; enquanto não admitir que o pecado introduziu na sua
consciência uma divisão, que avassala todo o seu ser e o separa de Deus e
dos irmãos. O sinal sacramental desta limpidez da consciência é o acto
tradicionalmente chamado exame de consciência, acto que deveria
ser sempre, não tanto uma introspecção psicológica ansiosa, mas o
confronto sincero e sereno com a lei moral interior, com as normas
evangélicas propostas pela Igreja, com o próprio Jesus Cristo, que é
para nós mestre e modelo de vida e com o Pai celeste que nos chama ao
bem e à perfeição. (184)
Mas o acto essencial da Penitência, da parte do penitente, é a contrição, ou seja, um claro e decidido repúdio do pecado cometido, juntamente com o propósito de não o tornar a cometer, (185)
pelo amor que se tem a Deus e que renasce com o arrependimento.
Entendida deste modo a contrição é, pois, o princípio e a alma da conversão, daquela metánoia
evangélica que reconduz o homem a Deus, como o filho pródigo que volta
ao pai, e que tem no Sacramento da Penitência o seu sinal visível e
aperfeiçoador da própria atrição. Por isso, «desta contrição do coração
depende a verdade da penitência». (186)
Supondo e chamando a atenção para tudo aquilo que a Igreja, inspirada pela palavra de Deus, ensina acerca da contrição,
está-me particularmente a peito, neste ponto, salientar um aspecto de
tal doutrina, para que seja melhor conhecido e mais tido presente. Não
raro se considera a conversão e a contrição sob o aspecto
das inegáveis exigências que elas comportam e da mortificação que
impõem em ordem a uma radical mudança de vida. Mas é bom recordar e
acentuar que contrição e conversão são, sobretudo, uma
aproximação da santidade de Deus, um reencontro da própria verdade
interior, obscurecida e transtornada pelo pecado , um libertar-se no
mais profundo de si próprio e, por isso, um reconquistar a alegria
perdida, a alegria de ser salvado, (187) que a maioria dos homens do nosso tempo já não sabe saborear.
Compreende-se, assim, que desde os primeiros tempos cristãos, em
ligação com os Apóstolos e com Cristo, a Igreja tenha incluído no sinal
sacramental da Penitência a acusação dos pecados. Esta aparece como tão relevante que, desde há séculos, o nome usual do Sacramento foi e é ainda agora o de confissão.
Acusar os próprios pecados é exigido, antes de mais, pela necessidade
do pecador ser conhecido por aquele que no Sacramento exerce o papel de juiz, o qual deve avaliar, quer a gravidade dos pecados, quer o arrependimento do penitente; e, simultaneamente, o papel de médico, que deve conhecer o estado do enfermo para tratar dele e o curar. Mas a confissão individual tem também o valor de sinal:
sinal do encontro do pecador com a mediação eclesial na pessoa do
ministro; sinal do seu pôr-se a descoberto diante de Deus e da Igreja
como pecador, do esclarecer-se a si mesmo sob o olhar de Deus. A
acusação dos pecados, portanto, não pode ser reduzida a qualquer
tentativa de autolibertação psicológica, ainda que esta corresponda a
uma necessidade legítima e natural de abrir-se com alguém, o que é algo
ínsito no coração do homem. Trata-se de um gesto litúrgico, solene na
sua dramaticidade, humilde e sóbrio na grandeza do seu significado. É o
gesto do filho pródigo que volta para junto do pai e por ele é acolhido
com o beijo da paz; gesto de lealdade e de coragem; gesto de entrega de
si mesmo, passando além do pecado, à misericórdia que perdoa. (188)
Compreende-se, então, por que é que a acusação dos pecados deve ser ordinariamente
individual e não colectiva, tal como o pecado é um facto profundamente
pessoal. Ao mesmo tempo, porém, esta acusação arranca, de certo modo, o
pecado do segredo do coração e, por conseguinte, do âmbito da pura
individualidade, pondo em relevo o seu carácter social, uma vez que,
mediante o ministro da Penitência, é a Comunidade eclesial, lesada pelo
pecado, que acolhe de novo o pecador arrependido e perdoado.
O outro momento essencial do Sacramento da Penitência, compete, por
sua vez, ao confessor juiz e médico, imagem de Deus Pai que acolhe
aquele que regressa e lhe perdoa: é a absolvição. As palavras que a exprimem e os gestos que a acompanham no antigo e no novo Ritual da Penitência,
revestem-se de uma significativa simplicidade na sua grandeza. A
fórmula sacramental: «Eu te absolvo...», a imposição das mãos e o sinal
da cruz traçado sobre o penitente manifestam que naquele momento o
pecador contrito e convertido entra em contacto com o poder e a
misericórdia de Deus. É em tal momento que, em resposta ao penitente, a
Santíssima Trindade se torna presente para apagar o seu pecado e
restituir-lhe a inocência; e a força salvífica da Paixão, Morte e
Ressurreição de Jesus é comunicada ao mesmo penitente, como
«misericórdia mais forte do que a culpa e a ofensa», como a designei na
Encíclica Dives in Misericordia.
Deus é sempre o principal ofendido pelo pecado — «Pequei só contra
Vós!» («tibi soli peccavi!») — e só Deus pode perdoar. Por isso, a
absolvição que o Sacerdote, ministro do perdão, embora também ele
pecador, concede ao penitente, é o sinal eficaz da intervenção do Pai em
cada absolvição e da «ressurreição» da «morte espiritual» que se renova
todas as vezes que é actuado o Sacramento da Penitência. Só a fé pode
assegurar que naquele momento todos e cada um dos pecados são perdoados e apagados pela misteriosa intervenção do Salvador.
A satisfação é o acto final que coroa o sinal sacramental da
Penitência. Em alguns países, o que o penitente perdoado e absolvido
aceita cumprir depois de ter recebido a absolvição, chama-se
precisamente penitência. Qual é o significado desta satisfação que se dá ou desta penitência
que se faz? Não é certamente o preço que se paga pelo pecado absolvido e
pelo perdão alcançado: nenhum preço humano pode equivaler ao que se
obteve, fruto do preciosíssimo Sangue de Cristo. As obras de satisfação —
que, embora conservando um carácter de simplicidade e de humildade,
deveriam tornar-se mais expressivas de tudo aquilo que significam —
querem dizer algo de precioso: são o sinal docompromisso pessoal
que o cristão assumiu com Deus, no Sacramento, de começar uma existência
nova (e por isso não deveriam reduzir-se somente a algumas fórmulas a
recitar, mas consistir em obras de culto, de caridade, de misericórdia e
de reparação); incluem a ideia de que o pecador perdoado é capaz de
unir a sua própria mortificação física e espiritual, procurada ou ao
menos aceite, à Paixão de Jesus que lhe alcançou o perdão; recordam que,
mesmo depois da absolvição, permanece no cristão uma zona de sombra
devida as feridas do pecado, à imperfeição do amor no arrependimento, ao
enfranquecimento das faculdades espirituais em que continua ainda
activo um foco infeccioso de pecado, que é preciso combater sempre com a
mortificação e a penitência. Tal é o significado da humilde mas sincera
satisfação. (189)
IV. Resta-me fazer uma breve referência a outras importantes convicções relativas ao Sacramento da Penitência.
Antes de mais, é preciso insistir em que não há nada mais pessoal e
íntimo do que este Sacramento, no qual o pecador se encontra na presença
de Deus, só, com a sua culpa, o seu arrependimento e a sua confiança.
Ninguém pode arrepender-se em seu lugar ou pode pedir perdão em seu
nome. Há uma certa solidão do pecador na sua culpa, que se pode ver
dramaticamente representada em Caim com o pecado «à espreita à sua
porta», como diz tão eficazmente o livro do Génesis, e marcado com o sinal particular na sua fronte; (190) em David, repreendido pelo profeta Natan; (191)
ou no filho pródigo, quando toma consciência da condição à qual se
reduziu pelo afastamento do pai e decide voltar para junto dele: (192)
tudo se passa só entre o homem e Deus. Mas, ao mesmo tempo, é inegável a
dimensão social deste Sacramento, no qual é toda a Igreja — a
militante, a purgante e a triunfante no Céu — que intervém em auxílio do
penitente e o acolhe de novo no seu seio, tanto mais que toda a Igreja
fora ofendida e ferida pelo seu pecado. O Sacerdote, ministro da
Penitência, em virtude da sua função sagrada, aparece como testemunha e
representante de tal eclesialidade. São dois aspectos complementares do
Sacramento, a individualidade e a eclesialidade, que a progressiva
reforma do rito da Penitência, especialmente a do Ordo Paenitentiae (novo Ritual) promulgado pelo Papa Paulo VI, procurou realçar e tornar mais significativos na sua celebração.
V. É de salientar, ainda, que o fruto mais precioso do perdão, obtido
pela Penitência, consiste na reconciliação com Deus, a qual se verifica
no segredo do coração do filho pródigo, e reencontrado, que é cada
penitente. Mas é preciso acrescentar que tal reconciliação com Deus tem
como consequência, por assim dizer, outras reconciliações, que vão
remediar outras tantas rupturas, causadas pelo pecado: o penitente
perdoado reconcilia-se consigo próprio no íntimo mais profundo do
próprio ser, onde recupera a própria verdade interior; reconcilia-se com
os irmãos, por ele de alguma maneira agredidos e lesados; reconcilia-se
com a Igreja; e reconcilia-se com toda a criação. A tomada de
consciência de tudo isto faz nascer no penitente, no final da
celebração, um sentimento de gratidão para com Deus pelo dom da
misericórdia que recebeu; e a Igreja convida-o à acção de graças.
Todos os confessionários são um espaço privilegiado e abençoado, do
qual, uma vez eliminadas as divisões, surge, novo e incontaminado, um
homem reconciliado — um mundo reconciliado!
VI. E por fim, está-me particularmente a peito fazer uma última consideração
que nos diz respeito a todos nós Sacerdotes, que somos os ministros do
Sacramento da Penitência, mas que somos também — e devemos sê-lo sempre —
os beneficiários. A vida espiritual e pastoral do Sacerdote, como a dos
seus irmãos leigos e religiosos, depende, na sua qualidade e no seu
fervor, da prática pessoal assídua e conscienciosa do Sacramento da
Penitência. (193)
A celebração da Eucaristia e o ministério dos outros Sacramentos, o
zelo pastoral, a relação com os fiéis, a comunhão com os irmãos
Sacerdotes, a colaboração com o Bispo, a vida de oração, numa palavra,
toda a existência sacerdotal sofre inexorável decadência, se lhe falta
por negligência ou por qualquer outro motivo o recurso, periódico e
inspirado por fé autêntica e devoção, ao Sacramento da Penitência. Num
sacerdote que deixasse de se confessar ou se confessasse mal, o seu ser padre e o exercício do seu Sacerdócio bem depressa se ressentiriam e disso se daria conta a própria Comunidade de que ele é pastor.
Mas acrescento também que, até para ser bom e eficaz ministro da
Penitência, o Sacerdote precisa de recorrer à fonte da graça e santidade
presente neste Sacramento. Nós Sacerdotes, com base na nossa
experiência pessoal, bem podemos dizer que, na medida em que procuramos
recorrer ao Sacramento da Penitência e nos aproximamos dele com
frequência e com boas disposições, desempenhamos melhor o nosso próprio
ministério de confessores e melhor asseguramos aos penitentes o seu
benefício. De outro modo, este ministério perderia muito da sua
eficácia, se de alguma maneira deixássemos de ser bons penitentes. Tal é
a lógica interna deste grande Sacramento. Ele convida-nos, a todos nós Sacerdotes de Cristo, a uma renovada atenção à nossa confissão pessoal.
A experiência pessoal, por sua vez, torna-se e deve tornar-se hoje
um estímulo para o exercício diligente, pontual, paciente e fervoroso
do ministério sagrado da Penitência, a que estamos comprometidos por
força do nosso Sacerdócio e da nossa vocação para ser pastores e
servidores dos nossos irmãos. Assim, com a presente Exortação, quero
dirigir um instante apelo a todos os Sacerdotes do mundo, especialmente
aos meus Irmãos no Episcopado e aos Párocos, para que favoreçam com
todas as veras a frequência dos fiéis a este Sacramento, ponham em
prática todos os meios possíveis e convenientes e tentem todas as vias
para fazer chegar ao maior número de irmãos nossos a «graça que nos foi
dada» mediante a Penitência, para a reconciliação de cada alma e de todo
o mundo com Deus, em Cristo.
As formas da celebração
32. Seguindo as indicações do Concílio Vaticano II, o Ordo Paenitentiae
predispôs três ritos que, ressalvados sempre os elementos essenciais,
permitem adaptar a celebração do Sacramento da Penitência a determinadas
circunstancias pastorais.
A primeira forma — reconciliação individual dos penitentes —
constitui o único modo normal e ordinário da celebração sacramental, e
não pode nem deve deixar-se cair em desuso ou ser descurada. A segunda —
reconciliação de vários penitentes com confissão e absolvição individual—
ainda que permita, nos actos preparatórios, realçar mais os aspectos
comunitários do Sacramento, vai confluir na primeira forma no acto
sacramental culminante, que é o da confissão e a absolvição individuais
dos pecados; e, por isso, pode ser equiparada à primeira forma no que
toca à normalidade do rito. A terceira, ao contrário — reconciliação de vários penitentes com a confissão e a absolvição geral — reveste-se de carácter excepcional e não é, por isso, deixada à livre escolha, mas é regulada por uma disciplina especial.
A primeira forma permite a valorização dos aspectos mais pessoais — e
essenciais — que estão compreendidos no itinerário penitencial. O
diálogo entre o penitente e o confessor, o próprio conjunto dos
subsídios utilizados (os textos bíblicos, a escolha das formas de
«satisfação», etc.) são elementos que tornam a celebração sacramental
mais correspondente à situação concreta do penitente. Descobre-se o
valor de tais elementos, quando se pensa nas diversas razões que levam
um cristão à penitência sacramental: necessidade de reconciliação
pessoal e readmissão na amizade com Deus, recuperando a graça perdida
por causa do pecado; necessidade de verificação do caminho espiritual e,
por vezes, de um mais preciso discernimento vocacional; e, tantas
outras vezes, uma necessidade e um desejo de sair de um estado de apatia
espiritual e de crise religiosa. Graças, ainda, à sua índole
individual, a primeira forma de celebração permite associar o Sacramento
da Penitência a algo de diferente, mas perfeitamente conciliável com
ele: refiro-me à direcção espiritual. Por conseguinte, é óbvio que a decisão e o empenho pessoais estão claramente significados e solicitados nessa primeira forma.
A segunda forma de celebração, precisamente pelo seu carácter
comunitário e pela modalidade celebrativa que a caracteriza, faz
ressaltar alguns aspectos de grande importância: a Palavra de Deus,
escutada em comum, tem um efeito singular, em relação à sua leitura
individual, e evidencia melhor o carácter eclesial da conversão e da
reconciliação. Essa celebração resulta particularmente significativa nos
diversos tempos do ano litúrgico e em conexão com acontecimentos de
especial relevância pastoral. Basta acenar aqui, apenas, que para tal
celebração importa haver a presença de um número suficiente de
confessores.
É natural, portanto, que os critérios para estabelecer a qual das
duas formas de celebração se deva recorrer sejam ditados, não por
motivações conjunturais e subjectivas, mas pelo desejo de obter o
verdadeiro bem espiritual dos fiéis, em obediência à disciplina
penitencial da Igreja.
Será bom recordar também que, para uma equilibrada orientação
espiritual e pastoral neste campo, é necessário continuar a atribuir
grande valor ao Sacramento da Penitência e educar os fiéis a recorrerem a
ele, mesmo só para os pecados veniais, como atestam uma tradição
doutrinal e uma prática já seculares.
Mesmo sabendo e ensinando que os pecados veniais são perdoados também
de outros modos — pense-se nos actos de contrição, na obras de
caridade, na oração e nos ritos penitenciais — a Igreja não cessa de
recordar a todos a singular riqueza do momento sacramental também pelo
que se refere a tais pecados. O recurso frequente ao Sacramento — a que
estão obrigadas algumas categorias de fiéis — reforça a consciência de
que também os pecados menores ofendem a Deus e ferem a Igreja, corpo de
Cristo; e a celebração do mesmo Sacramento torna-se para todos os
cristãos «ocasião e estímulo a conformarem-se mais intimamente com
Cristo e a tornarem-se mais dóceis à voz do Espírito». (194)
Sobretudo deve frisar-se bem o facto de a graça própria da celebração
sacramental ter grande eficácia terapêutica e contribuir para arrancar
as próprias raízes do pecado.
O cuidado dispensado ao aspecto celebrativo, (195)
com particular referência à importância da Palavra de Deus, lida,
evocada e explicada, quando for possível e oportuno, aos fiéis e com os
fiéis, contribuirá para vivificar a prática do Sacramento e para impedir
que decaia para algo de formal e rotineiro. O penitente há-de ser
ajudado sobretudo a descobrir que está a viver um acontecimento de
salvação, capaz de infundir nele um novo impulso de vida e uma
verdadeira paz no seu coração. Este cuidado pela celebração há-de levar,
ainda, entre outras coisas, a fixar em cada Igreja tempos destinados à celebração do Sacramento
e a educar os fiéis, especialmente as crianças e os jovens, a aterem-se
a eles, ordinariamente, salvo a casos de necessidade, em relação aos
quais o pastor de almas deverá mostrar-se sempre pronto a acolher de boa
vontade quem a ele recorrer.
A celebração do Sacramento com absolvição geral
33. Na nova ordenação litúrgica e, mais recentemente, no novo Código de Direito Canónico,
(196) estão determinadas as condições que legitimam o recurso ao «rito
da reconciliação de vários penitentes, com a confissão e a absolvição
geral». As normas e as directrizes dadas quanto a este ponto, fruto de
madura e equilibrada consideração, devem ser acolhidas e aplicadas
evitando toda a espécie de interpretação arbitrária.
É oportuna uma ulterior reflexão, mais aprofundada, sobre as
motivações, que impõem a celebração da Penitência numa das duas
primeiras formas e que permitem o recurso à terceira forma. Há, antes de
mais, uma motivação de fidelidade à vontade do Senhor Jesus, transmitida pela doutrina da Igreja e, além disso, de obediência as leis da mesma Igreja: o Sínodo reafirmou numa das suas Propostas
(«Propositiones») o inalterado ensino que a Igreja foi haurir na mais
antiga Tradição e recordou a lei com que codificou a antiga prática
penitencial: a confissão individual e íntegra dos pecados, com a
absolvição igualmente individual, constitui o único modo ordinário,
pelo qual o fiel, culpado de pecado grave, é reconciliado com Deus e
com a Igreja. Desta confirmação do ensino da Igreja, resulta claramente
que todos os pecados devem ser sempre declarados, com as suas circunstâncias determinantes, numa confissão individual.
Existe, ainda, uma motivação de ordem pastoral. Se é verdade
que, verificando-se as condições requeridas pela disciplina canónica, se
pode fazer uso da terceira forma de celebração da Penitência, não se
deve esquecer, no entanto, que esta não pode tornar-se uma forma ordinária,
e que não pode nem deve ser adoptada — repetiu-o o Sínodo — senão «em
casos de grave necessidade», permanecendo firme a obrigação de confessar
individualmente os pecados graves antes de recorrer novamente à
absolvição geral. O Bispo, portanto, o único a quem compete, no âmbito
da sua Diocese, ajuizar se existem em concreto as condições que a lei
canónica estabelece para o uso dessa terceira forma, dará tal juízo, onerando gravemente a sua consciência,
com respeito pleno da lei e da prática da Igreja; e, além disso, tendo
em conta critérios e orientações que hajam sido dados — com base nas
considerações doutrinais e pastorais acima apresentadas — de comum
acordo, pelos demais membros da Conferência Episcopal. Terá de haver,
igualmente, uma autêntica preocupação pastoral em procurar e garantir as
condições que tornem o recurso à terceira forma susceptível de dar
aqueles frutos espirituais, para os quais ela está prevista.
Assim, o uso excepcional da terceira forma de celebração do
Sacramento da Penitência não deverá nunca levar a uma menor consideração
e, menos ainda, ao abandono das formas ordinárias, ou então a
considerar essa forma como uma alternativa das outras duas. Não é,
efectivamente, deixado à liberdade dos Pastores e dos fiéis escolher
entre as mencionadas formas de celebração aquela que retiverem mais
oportuna. Para os Pastores permanece a obrigação de facilitarem aos
fiéis a prática da confissão íntegra e individual dos pecados, que
constitui para eles não só um dever, mas também um direito inviolável e
inalienável, além de uma necessidade espiritual.
Para os fiéis o uso da terceira forma de celebração comporta a
obrigação de se aterem a todas as normas que regulam a sua prática,
incluindo a de não recorrerem de novo à absolvição geral antes de uma
confissão regular, integral e individual dos pecados, que deverão fazer
logo que seja possível. Os mesmos fiéis devem ser advertidos e
instruídos pelo Sacerdote, acerca desta norma e da obrigação de a
observar, antes da absolvição.
Ao recordar assim a doutrina e a lei da Igreja, é minha intenção
inculcar em todos o vivo sentido de responsabilidade, que sempre nos
deve guiar ao tratar das coisas sagradas; estas não são propriedade
nossa, como é o caso dos Sacramentos; ou então têm direito a não serem
deixadas na incerteza e na confusão, como são as consciências. Coisas
sagradas — repito — são uns e outras: os Sacramentos e as consciências; e
exigem da nossa parte serem servidas com verdade.
Esta é a razão da lei da Igreja!
Alguns casos mais delicados
34. Sinto-me no dever, chegado a este ponto, de fazer uma alusão,
ainda que brevíssima, a um caso pastoral que o Sínodo quis tratar — na
medida que lhe era possível fazê-lo — contemplando-o também numa das Propostas
(«Propositiones»). Refiro-me a certas situações, hoje não infrequentes,
em que, vêm a encontrar-se cristãos desejosos de continuarem a prática
religiosa sacramental, mas que disso estão impedidos pela própria
condição pessoal, em contraste com os compromissos assumidos livremente
diante de Deus e da Igreja. São situações que se apresentam
particularmente delicadas e quase inextricáveis.
Não poucas intervenções, no decorrer do Sínodo, exprimindo o
pensamento geral dos Padres, puseram bem a claro a coexistência e a
influência mútua de dois princípios, igualmente importantes, no que
respeita a estes casos. O primeiro é o princípio da compaixão e da
misericórdia, segundo o qual a Igreja, continuadora na história da
presença e da obra de Cristo, não querendo a morte do pecador, mas que
se converta e viva, (197) atenta a não partir a cana já fendida e a não apagar a chama que ainda fumega, (198)
procura sempre facultar, na medida em que lhe é possível, o caminho do
retorno a Deus e da reconciliação com ele. O outro é o princípio da
verdade e da coerência, pelo qual a Igreja não aceita chamar bem ao mal e
mal ao bem. Baseando-se nestes dois princípios complementares, a Igreja
mais não pode do que convidar os seus filhos, que se encontram nessas
situações dolorosas, a aproximarem-se da misericórdia divina por outras
vias, mas não pela via dos Sacramentos, especialmente da Penitência e da
Eucaristia, até que não tenham podido alcançar as condições requeridas.
Acerca desta matéria, que angustia profundamente também o nosso
coração de pastores, pareceu-me ser meu preciso dever, já na Exortação
Apostólica Familiaris Consortio, dizer palavras claras pelo que se refere ao caso dos divorciados novamente casados (199) ou de cristãos que, de qualquer maneira, convivem conjugalmente de modo irregular.
Ao mesmo tempo, sinto vivamente o dever de exortar, juntamente com o
Sínodo, as comunidades eclesiais e, sobretudo os Bispos, a darem toda a
ajuda possível aos Sacerdotes, que, tendo faltado aos graves
compromissos assumidos na Ordenação, se encontram em situações
irregulares. Nenhum destes irmãos há-de sentir-se abandonado pela
Igreja.
Para todos aqueles que não se encontrem actualmente nas condições
objectivas requeridas pelo Sacramento da Penitência, as demonstrações de
maternal bondade por parte da Igreja, o apoio de actos de piedade
diversos dos actos sacramentais, o esforço sincero por se manter em
contacto com o Senhor, a participação na Santa Missa, a repetição
frequente de actos de fé, de esperança, de caridade e de contrição
quanto for possível perfeitos, poderão preparar o caminho para uma plena
reconciliação no momento que só a Providência conhece.
VOTOS CONCLUSIVOS
35. No final deste Documento, sinto ressoar em mim e desejo repetir a
todos vós a exortação que o primeiro Bispo de Roma, numa hora crítica
dos primórdios da Igreja, quis endereçar «aos peregrinos da Dispersão
(...), eleitos segundo a presciência de Deus Pai»: «sede todos
concordes, sede compassivos, em amor de irmãos, misericordiosos,
humildes». (200)
O Apóstolo recomendava: «sede todos concordes...»; mas imediatamente a
seguir apontava os pecados contra a concórdia e a paz, que é preciso
evitar: «Não retribuais o mal com o mal, nem a injúria com a injúria; ao
contrário, respondei bendizendo, pois para isto fostes chamados, para
conseguirdes a bênção». E concluía com uma palavra de encorajamento e de
esperança: «quem vos poderá fazer mal, se fordes zelosos pelo bem?». (201)
Ouso ligar esta minha Exortação, numa hora não menos crítica da
história, à do Príncipe dos Apóstolos, que foi o primeiro a sentar-se
nesta Cátedra romana, como testemunha de Cristo e pastor da Igreja, e
aqui «presidiu à caridade» diante do mundo inteiro. Também eu, em
comunhão com os Bispos sucessores dos Apóstolos e confortado pela
reflexão colegial que muitos deles, reunidos no Sínodo, dedicaram aos
temas e problemas da reconciliação, desejei comunicar-vos, com o mesmo
espírito do pescador da Galileia, o que ele dizia aos nossos irmãos na
fé, longe de nós no tempo, mas bem unidos no coração: «sede todos
concordes (...), não retribuais o mal com o mal (...), sede zelosos pelo
bem». (202) E acrescentava: «é melhor padecer, praticando o bem, se assim agrada à vontade de Deus, do que fazendo o mal». (203)
Esta palavra de ordem está repleta de expressões que Pedro ouvira ao
próprio Jesus e de conceitos, que faziam parte da sua «Boa Nova»: o
mandamento novo do amor mútuo; o anelo e o empenho pela unidade; as
bem-aventuranças da misericórdia e da paciência na perseguição pela
justiça; o retribuir o mal com o bem; o perdão das ofensas; o amor dos
inimigos. Em tais palavras e conceitos está a síntese original e
transcendente da ética cristã ou, melhor e mais profundamente, da
espiritualidade da Nova Aliança em Jesus Cristo.
Confio ao Pai, rico de misericórdia,
confio ao Filho de Deus, feito homem como nosso Redentor e
Reconciliador, confio ao Espírito Santo, fonte de unidade e de paz, este
meu apelo de pai e de pastor à penitência e à reconciliação. Queira a
Trindade Santíssima e adorável fazer germinar na Igreja e no mundo a
pequenina semente que neste momento entrego à terra generosa de tantos
corações humanos.
Para que daí provenham, num dia não muito longínquo, frutos
abundantes, convido-vos a todos a dirigir-vos comigo ao Coração de
Cristo, sinal eloquente da misericórdia divina, «propiciação pelos
nossos pecados», «nossa paz e reconciliação», (204)
para aí haurirmos a energia interior para a detestação do pecado e para
a conversão a Deus, e aí encontrarmos a benignidade divina que
amorosamente responde ao arrependimento humano.
Convido-vos também a dirigir-vos comigo ao Coração Imaculado de
Maria, Mãe de Jesus, na qual «se operou a reconciliação de Deus com a
humanidade (...), se realizou a obra da reconciliação, porque ela
recebeu de Deus a plenitude da graça, em virtude do sacrifício redentor
de Cristo». (205) Na verdade, Maria, em virtude da sua maternidade divina, tornou-se «a aliada de Deus» na obra da reconciliação. (206)
Nas mãos desta Mãe, cujo «fiat», na expressão de muitos autores,
assinalou o início daquela «plenitude dos tempos» que viu ser realizada
por Cristo a reconciliação do homem com Deus e ao seu Coração Imaculado —
ao qual tenho repetidamente entregado e confiado toda a humanidade,
turbada pelo pecado e dilacerada por tantas tensões e conflitos — confio
agora de modo especial esta intenção: que, por sua intercessão, a mesma
humanidade descubra e percorra o caminho da penitência, o único que a
poderá conduzir à plena reconciliação!
A todos vós, que, com espírito de comunhão eclesial na obediência e na fé, (207)
quiserdes acolher as indicações, as sugestões e as directrizes contidas
neste Documento, esforçando-vos por traduzi-las em prática pastoral
viva, concedo de todo o coração a minha Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto de São Pedro, a 2 de Dezembro, I Domingo do Advento, do ano de 1984, sétimo do meu Pontificado.
JOÃO PAULO II
fonte: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_02121984_reconciliatio-et-paenitentia.html